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As verdades de morar fora com Vitor

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Oi gente, hoje eu acho que vocês vão ter a experiência de me ver conversando com um dos meus melhores amigos da vida. Meu irmãozão, o Vitor, faz parte da minha vida, sei lá há quantos anos, há muito, muito tempo mesmo. E hoje em dia ele mora na Inglaterra e eu moro aqui em Portugal. A última vez que nós nos vimos pessoalmente acho que foi há dois anos atrás. Então assim, eu tô morrendo de saudade dele e vocês vão ver como realmente o carioca conversa um com o outro. Tem muitas gírias, tem muitos palavrões. Então eu espero que vocês gostem disso. Então vamos lá para o episódio.

Transcription

Vitor: Está quente aí também?

Alexia: Então eu escutei também… o meu aluno que está em Manchester acabou de falar que está insuportável.

Vitor: Porra… Inglaterra não entende como funciona clima, sabe. É sempre um negócio extremo.

Alexia: Mas aqui também tá? A semana passada estava tipo 33°.

Vitor: Horrível.

Alexia: Estava horrível. Mas você não tem ar não?

Vitor: Não, eu tenho paredes grossas…

Alexia: Ué podia ter aquecimento e ar central ué…

Vitor: Cara, eu já tenho uma parada muito difícil de achar na Europa, que é um dois quartos estilo Barra da Tijuca. Tem sauna, academia, garagem.

Alexia: Vitor, quando que você ia imaginar virar barrense na sua vida?

Vitor: Nunca, nunca… eu escolhi o melhor lugar para virar barrense né, para falar a verdade. Posso falar nesse seu show aqui e expor meus preconceitos com barrense ou não? A gente conhece tantos né, então não tem problema.

Alexia: Pode. Eu tenho uma lista.

Vitor: É igual aqui o Bolsonaro com Hélio Negão né. A gente tem um amigo então a gente não é. Enfim… para descontrair.

Alexia: Bom… mas assim a conversa pode ser assim o tempo inteiro tá. Não tem o menor problema. E eu tenho certeza absoluta que o Felipe vai deixar essa primeira parte, então não tem problema.

Vitor: Tá bom, beleza.

Alexia: Vitor, vamos lá. A gente já se conhece há muito tempo, obviamente, então eu já sei sua vida inteira. Eu sei todos os motivos, mas todo mundo que está te escutando não sabe, né. Então conta para a gente quando que você saiu do Rio, do Rio especificamente né, que você é carioca. Porque você saiu e para onde você foi, conta aí essa história.

Vitor: Tá, eu saí do Rio para fazer MBA na universidade de Oxford na Inglaterra. E antes disso eu não tinha muita coisa a ver com business assim… eu estava numa trajetória… bom, o Rio tinha passado por uma fase maravilhosa que era tipo… Panamericano, Olimpíadas, Copa do Mundo… e eu conheci… já tinha conhecido a minha mulher, a Luiza, na época a gente começou a namorar. Então tinha muito otimismo na época e durante esse otimismo a gente viu que em algum momento ia chegar nossa hora de conhecer o mundo assim. E o melhor jeito seria a gente aproveitar essa temporada de conhecer o mundo para se capacitar e conhecer… explorar também o mundo numa dimensão profissional assim. E nada melhor do que vir para um lugar como a Europa, em algum lugar na Europa, que pudesse ter possibilidade da gente dar uns pulos para outros lugares no mundo. Já que no Brasil se quiser ir para Nova Zelândia ou Austrália é um parto né. Ou a Índia e tal. Então a idéia era essa. A gente ir para um lugar verdadeiramente cosmopolita, diverso e ter uma vida interessante.

Alexia: Mas aí você… vocês procuraram tipo uma cidade que fosse parecida com o Rio de alguma forma ou não?

Vitor: Ih cara… isso é um processo né, e é um processo interativo, vai e volta. Você deve ter passado pela mesma coisa né. Você tem uma ideia, aí você fica com essa ideia algumas semanas, conversa com as pessoas ou lê alguma coisa e aí você muda… e aí você volta. O que a gente queria, assim as linhas gerais, era um… poxa a gente tem que ir para um lugar interessante, que tenha pessoas interessantes e que a gente não vai ficar desesperado pelo clima. E eu até nem sabia que a Inglaterra era tão ao norte. Cheguei aqui eu falei… não sabia que o clima… pode falar palavrão aqui ou não…

Alexia: Pode.

Vitor: Não sabia que era tão ruim, tão ruim.

Alexia: É muito engraçado porque a gente começou a conversa falando “tá muito quente aqui, que merda” que não sei o que…

Vitor: Verdade. Aqui pelo menos que tem… em Londres né… pessoal brinca que tem as quatro estações por dia. Mas verão mesmo só tem uma semana. E o aquecimento global é até normal para o povo daqui… porque aumenta o verão… e eles param de invadir Portugal aí que é a tua área.

Alexia: Pois é, pois é. A invasão é tensa, a invasão é tensa. Durante a Champions League eu fiquei chocada com a quantidade aqui.

Vitor: Teve muita bunda para fora ou não?

Alexia: Teve, ih teve muita briga. Teve tudo. Eu fiquei chocada. Meu pai passava na rua perto da casa dele e disse que tinha um bando de gente muito bêbada tipo 9 horas da manhã sabe. Aquela coisa é carnaval, carnaval.

Vitor: Você vê uns caras meio socadinhos assim branco, careca… com tatuagem em algum lugar… brother… mas é isso.

Alexia: Então você se formou em Direito na PUC do Rio, né…

Vitor: Isso, o meu currículo é, enfim, se for pra gente ir lá atrás né… o Rio de Janeiro é uma bolha. Alexia sabe e acho que parte da tua audiência sabe também. Então você tem… se você mora na zona sul a probabilidade de você estudar em… sei lá, numa lista de 10 colégios é muito alta. E somente se seus pais te colocaram num nível tipo muito bom para excelente de vida assim. Então eu vim de um desses colégios e Alexia veio de outro. Desses colégio muito próximos, geograficamente. E eu acabei estudando na PUC do Rio. Foi uma opção que fez sentido financeiro. Eu tive bolsa de estudos lá e na época, de novo, saído de um colégio super tradicional… dificilmente saia da zona sul do Rio de Janeiro. Eu tinha passado na Nacional em Direito que era uma super pressão no meu colégio e tal… e eu tinha conseguido. Aí eu virei pra casa e falei “pai, mãe, passei, eu vou, vou para lá…”. Aí vieram “mas pô, peraí, você não quer estudar aqui na PUC?”... que é a 15 minutos a pé?

Alexia: Aqui do lado.

Vitor: Isso. Você vai ter bolsa… enfim… ouvi e tal. E aí eu falei “ah” aí eu cedi. E aí eu tive uma exposição 2.0 assim, o que era ser playboy e patricinha sabe. Eu nunca gostei muito disso. Apesar da PUC ser muito bonita… e eu sempre tentei me meter naquele… chopada no Méier, sabe? Alguma coisa num bairro que eu nunca ouvi falar… no Grajaú… e…

Alexia: Feira de São Cristóvão…

Vitor: Feira de São Cristovão. Então assim, foi uma boa desculpa. Apesar de eu estar num lugar de playboy, foi uma boa desculpa para eu explorar o Rio. Aí eu fiz estágio nos escritórios de direito societários, super grã finos. Eu tive professores que volta e meia estão aí nos noticiários. Por bem ou por mal.

Alexia: Isso que eu ia falar… não vamos divulgar muito os nomes que é melhor deixar assim.

Vitor: Não, não, advogado mau caráter você não fala. Porque já são advogados né… enfim. Chegou um momento que eu enchi o saco do direito porque… escritório é muito… escritório de advocacia é muito tradicional né. Tem que obedecer os coroas do escritórios, os mais experientes e tal… até você ter um lugar ao sol. Pelo menos a minha experiência foi assim. Eu desisti, passei dois meses sem trabalhar, e aí me chamaram… eu queria morar fora já… comecei a estudar comércio exterior… e me chamaram para uma entrevista no sindicato patronal. Sindicato de empresas de shipping. E eu entrei… ajudou que eu era advogado então fiz muita coisa jurídica lá. Mas eu entrei para administrar um negócio novo, que era um negócio de educação que eles estavam querendo fazer. E aí me expôs a duas coisas muito diferentes… que era além do direito marítimo propriamente dito… mas era uma mesmice né, porque era direito. Eu comecei a aprender administração, comecei a aprender e educação. Eu tive que lidar com outros seres humanos que trabalhavam com outras disciplinas, que é uma coisa que advogado não faz.

Alexia: Não. Quando você é advogado você tem só um assunto.

Vitor: É, a gente é chato né. Hoje quando eu me apresento, quando eu revelo para os meus clientes e para os meus colegas que eu fui advogado, eu falo uma coisa assim "don't hold that against me”, sabe? Tipo assim, não joga na minha cara. Mas foi uma experiência boa sim… saber direito ajuda o básico do básico de administração, eu acho. Pelo menos ajuda você a não ser preso.

Alexia: Sim, pelo bem, pelo mal o direito ele… o curso de direito ele te dá uma visão muito ampla né de várias coisas assim… você consegue usar para muita coisa. Então é um curso muito bom né.

Vitor: É interessante. Você fica compliance driven né. Você não é naturalmente uma pessoa que vai pensar em um processo sólido de inovação. Que foi uma coisa que aprendi na última etapa da minha carreira. Mas você enfim, você sabe aplicar um processo. E você tem padrão de qualidade, por que o mínimo você tem né. Você entende o que que é uma sequência de etapas.

Alexia: Sim, sim. Mas Vitor, essa formiguinha, digamos assim, de viajar, de morar fora, ela foi plantada muito antes disso né. Você veio até aqui para Portugal para Coimbra. Você passou um tempo fora.

Vitor: Isso aí, isso aí… e caraca você não sabe a briga que deu na minha família antes de eu ir.

Alexia: Porque?

Vitor: Você sabe que eu sempre morei com a minha mãe e com a minha avó, né. Meus pais são separados desde que eu sou muito muito novo. Mas também, meu pai tem livre acesso lá em casa, sempre teve.

Alexia: É incrível isso, né. É incrível isso, graças a Deus, que bom.

Vitor: Assim, é legal. Para mim isso sempre foi o ponto de partida né. Eu ouvi isso de algumas pessoas já. Bacana. Foi bom. E aí meu pai e a minha avó se juntaram contra a minha mãe. A minha mãe era favor que eu fosse para Coimbra, era a favor que eu viajasse e tal. Meu pai e minha avó queriam que… enfim, minha avó era ex-sogra do meu pai né… então… ex-sogra. Achavam que seria uma perda de tempo, que eu não ia estudar, que não sei o que. Enfim, eles estavam certos, de fato eu estudei muito pouco. Mas o intangível que eu trouxe foi assim… sem preço né.

Alexia: Sim. É um complô, foi complô contra você.

Vitor: Sim, foi um complô, foi um complô. Hoje eles se arrependem. Hoje eles concordam que foi muito bom.

Alexia: Ah sim, não, mas o crescimento emocional que você tem quando você faz uma viagem dessas sozinho pela primeira vez… é

impressionante.

Vitor: É loucura, você tem que lavar a sua própria cueca. Viajar para esses buracos que Europa tem e que ninguém fala sua língua, tem que se virar… aí você se ferra e é assaltado… aí, enfim, fica com alguém bonito, fica com alguém feio. Enfim, é muito interessante. Perde dinheiro. É muito interessante.

Alexia: É, vivendo a juventude né, vivendo a juventude. Isso você foi justo durante a faculdade?

Vitor: É foi, foi, foi primeira coisa a faculdade. Hoje quando eu falo assim volta e meia, eu estou com 32, vou fazer 32 semana que vem. Volta e meia você tem que mentorar alguém. E aí a primeira coisa que eu falo “cara, a melhor oportunidade que a universidade te dá, é fazer intercâmbio”. Porque o resto você pode estudar na internet, sabe? Além da questão formal do diploma né… claro que o diploma é importantíssimo. Mas dado que você entrou na faculdade, se você fizer o mínimo você vai conseguir o diploma. Sabe, cara faz um esforcinho e vai viajar sabe… nem que você tenha que trabalhar dois anos para juntar um dinheiro. É o que transforma a gente né Alexia.

Alexia: Mas é, exatamente. Eu não seria a Alexia hoje em dia sem ter tido a oportunidade. Que bom que os meus pais puderam me dar o privilégio de poder ter estudado fora e etc. Morado fora por um tempo. Mas é isso, quem tem oportunidade para fazer isso não pensa duas vezes. Simplesmente vai, com certeza.

Vitor: A gente até que nem era tão escroto antes de ir viajar. Mas a gente ficou tão melhor depois né.

Alexia: Com certeza, com certeza. E você veio para Coimbra junto com o nosso amigo… o nosso amigo, o Barja, já estava aqui também.

Vitor: Foi uma coincidência maneiríssima. A PUC tinha um programa de intercâmbio que era razoavelmente maduro assim. E ela pode

enviar alguns alunos da Universidade como um todo para alguns departamentos de Coimbra. Então eu vim com mais uma pessoa, mais uma aluna de direito, que era a Taís de Sá. Que estudou comigo no Santo Agostinho também.

Alexia: Ah, a Tais. Sim, claro.

Vitor: É, inclusive fez aniversário há dois dias atrás. E o Barja, que é um amigo meu de colégio também, enfim é nosso amigo até hoje. E ele foi estudar design em Caldas da Rainha.

Alexia: Ah, ele foi para Caldas. Eu não sabia. Eu sou doida para ir lá, doida.

Vitor: Eu também nunca cheguei a ir. Ele vinha para Coimbra direto, que era uma cidade maior, tinha mais badalação né.

Alexia: Movimento. Sim.

Vitor: E eu acho que a PUC mandou outra aluna de Design também junto com ele. E a gente viajou. Viajou junto, viajou separado. Foi ótimo cara.

Alexia: E Vitor, vem cá, na época que você estava aqui, que foi quando 10 anos atrás?

Vitor: Ah não fala isso não. Olha o tom.

Alexia: Eu não vim para Portugal há 10 anos atrás. Eu vim a primeira vez para Portugal há 4 anos atrás, uma coisa assim. Então assim…

Vitor: É mesmo?

Alexia: É, exato. Então a minha experiência de Portugal é completamente diferente da sua. Você tipo, estava em época de faculdade… oba oba o tempo inteiro… festa, festa das fitas. Sendo brasileiro em Portugal numa faculdade, como é que foi?

Vitor: Cara, eu morei numa casa com 40 africanos né. Eu fui recebido por um camarada, fumando dentro do meu quarto, de galocha. Eu cheguei em fevereiro… fevereiro era frio… eu nem sabia. Eu tinha 20 anos. Cara, apontar o dedo depois é fácil, entendeu. Mas eu não sabia. Eu não sabia que era tão frio. Eu nunca estive satisfeito com temperatura alguma no Rio de Janeiro…ou era muito frio, 14° era muito frio… e o dobro 28° era muito quente. Então, e o Rio de Janeiro passa, sei lá, passa fácil desses dois. Assim, pelo menos do 28 com certeza. Enfim, eu cheguei lá, estava frio. Apareceu um cara sem camisa, de cueca, galocha, e… como se fala… cachecol e gorro… fumando um cigarro fedorento no meu quarto… para me dar… enfim… bêbado, bêbado, bêbado para dizer “bem vindo”. Então as coisas… você em Portugal, você sabe… mas eu, a primeira vez que eu tinha escutado “e aí, tá tudo?”. Eu falei “tá tudo o que amigo?”.

Alexia: Eu já falo isso. “Então tá tudo?”... ah que bom, que bom.

Vitor: Quando eu atendia um telefone, eu tinha um telefone público.

Alexia: “Estou sim? Estou”.

Vitor: Pra mim isso era uma loucura. Português atende o telefone e em vez de falar “alô” eles falam “estou” ou “tô”. E eu achava isso muito esquisito.

Alexia: E a pessoa do outro lado pergunta “tá sim… estou, tá sim…” e fica nessa uns 5 minutos.

Vitor: Igual aqui na Inglaterra, quando eles falam tchau né, eles vão se despedir, eles falam “bye now, bye… see you later… take care”. Tipo cinco minutos dando tchau.

Alexia: Aqui também. Aqui para dar tchau é a “ah, então com licença, continuação de um ótimo dia, tchau tchau, com licença, tá bom, tá  bom” e você desliga. Não tem aquele beijo, tchau e pum, acabou. Então é uma experiência toda… falar no telefone, no telemóvel aqui em Portugal.

Vitor: Eu fui antes de WhatsApp, eu fui antes de internet. Eu tinha um Nokia daqueles grandes. E enfim, cara, eu lembro os africanos, os africanos eles eram muito maneiros. Eu chamo africano porque quase todo mundo ali era africano. Só que os caras tinham umas paradas, tipo, de batismo com os iniciantes. A gente tinha um banheiro por andar né. E o meu andar tinha, evidentemente, tinha um banheiro… e ficava no meio do corredor e eu ficava na ponta. Então tinha que percorrer metade do corredor até chegar no banheiro. Chegando lá uma vez eu botei a toalha, assim, no ombro né. Levei meu próprio papel higiênico.

Alexia: De sunga.

Vitor: De sunga… é de sunga. Uma trouxinha de roupa limpa e tal… enfim, coisas para tomar banho. E quando eu entro no banheiro e fecho a porta… eu olho para o vaso… sei lá, queria fazer um xixizinho, uma coisa assim… cara, o vaso estava fechado e tinha uma bolinha de cocô em cima do vaso.

Alexia: Ai que nojo.

Vitor: É… é. Os caras faziam essa parada né. Eu achava engraçado né… dane-se.

Alexia: Mas era tipo trote de iniciante né. Tipo bem-vindo.

Vitor: Era trote, mas era tipo trote de Portugal assim… não um negócio assim… que vai te desmoralizar. Era uma parada muito leve. Tinha outro que, por exemplo, parece trote de 50 anos atrás assim, 60 anos atrás. Outra coisa é que os caras escarravam embaixo do sabonete.

Alexia: Ai, Vitor…

Vitor: Você pegava o sabonete e tinha, tipo, um negócio muito nojento. Antes do covid o mundo era assim, viu gente.

Alexia: Agora a gente não pode nem soprar vela de aniversário. Não pode mais… você tem que aprender… tem que ser vela elétrica agora. Tem que ser vela elétrica.

Vitor: Cara, até aniversário sem bolo tá proibido.

Alexia: Ai que nojo… tá, e aí você ficou nessa casa o tempo inteiro. Foram quantos meses?

Vitor: Cara, eu fiquei… eu morei lá 5 meses. E aí no último mês eu… 4 meses… e aí teve um mês que eu morei com uma uma namorada que eu tive lá. E o último mês eu viajei. Cara, eu gastava 100 euros por mês, 150 euros por mês. Incluindo viagens esporádicas. Perdi 10 kgs cara. Eu saí do Rio malhado, como um playboy de 20 anos, bronzeado e tal. Fevereiro né, um calor danado no Rio… para 10 kgs, minha mãe chegou a achar que eu estava doente cara.

Alexia: Branco, com olheira…

Vitor: Branco, eu estava com uma barba… um cabelo esquisito. Eu raspei meu cabelo lá no meio… um dos africanos me deu uma… ele fazia pHD de química, era um cara super inteligente. Por algum motivo assim… ele não tinha os dentes da frente. Tinha um sotaque muito esquisito. O… acho que o nome dele era Will… William… e ele me deu a máquina dele de raspar cabelo né. Ele raspava 0, eu raspei a minha 1.  No que eu raspei… enfim, ficou uma merda. Evidentemente ficou uma merda. A nossa cabeça não é um troço regular. Cara, quando eu terminei eu entreguei para ele… e ele me olhou com uma cara de assustado… como se eu tivesse feito uma barbaridade. E encarei aquilo na maior tranquilidade… tipo assim, engoli meu choro, engoli meu orgulho e falei “é isso o que eu quero para minha vida”.

Alexia: Eu lembro de foto sua de cabelo raspado. Eu estou lembrando agora na minha cabeça. Porque você não divulgou isso muito. A gente não tinha WhatsApp, etc, mas a gente tinha Orkut.

Vitor: Orkut, isso aí.

Alexia: Então a gente tinha os testimonials e etc.

Vitor: Mas eu estava meio fora de mídia social porque eu estava meio… lembra que eu tinha uma namorada aqui no Rio que era um negócio meio mal resolvido?

Alexia: Lembro… eu lembro.

Vitor: Erros de todos os lados… a maior parte meus. Eu estava com o coração partido. E aí eu estava meio fora de mídia social.

Alexia: Sim, agora, foi muito fácil para você fazer amigos aqui né… por causa da cena universidade… e tipo você tinha que estar num grupo né. Você estava dentro de alguma coisa, então foi muito fácil. Como é que é aí, comparado com o Vitor de 10 anos atrás na faculdade com hoje em dia?

Vitor: Interessante, aqui na Inglaterra eu vivi dois mundos diferentes. Nenhum deles completamente em inglês. Assim como em Portugal também não foi eminentemente português. De novo, ambiente universitário. Mas em Oxford eu vivi numa numa sala com 350 pessoas de 50 nacionalidades em uma universidade que é até muito difícil para os próprios ingleses entrarem né, muito seletiva. Então para fazer amizade em Oxford ou fazer amizade na minha sala do MBA… e por causa do esquema de Oxford de eu fazer as amizades também no meu college. Que é tipo, é um organismo a parte onde… é tipo um castelo medieval… que tem uma administração própria onde você dorme e janta e tal. E aí foi maneiríssimo. Só que você tem hábitos diferentes das pessoas né, então eu sempre achei mais fácil fazer amigo com gente que vem de país pobre.

Alexia: A gente se vê né… um no outro, digamos assim. Entende as mesmas dificuldades.

Vitor: A maior parte… a maior parte das pessoas. Principalmente as pessoas que entendem a sorte que tem, sabe? Não importa o talento que elas também tenham mas… são pessoas que vêm de lugares profundamente distorcidos… que a sociedade é muito desigual. Então você entende, enfim, a oportunidade que está tendo, você entende melhor também o quão ruim, o quão desconfortável pode ser. Você explora, digamos, um espectro maior da sua humanidade. Pelo menos foi o que eu percebi em mim destes tempos de Oxford.

Alexia: Então você fez amizade com quem? Tipo de que países?

Vitor: Cara, muito indiano. Somente os menos conservadores. Ou seja, mais mulheres do que homens com certeza. E uma galera que trabalha com… que é ótimo estudante mas trabalha com uma coisa mais social assim. Achava interessante. Mais cabeça aberta.

Alexia: Entendi, tipo projeto social você diz?

Vitor: Startups sociais assim. Startup assim, tem que fazer dinheiro mas também tem que ter umas métricas ambientais e sociais, sabe. É uma coisa nova que estava surgindo na época. Ainda está crescendo, mas é tipo um greenwashing de banqueiro, sabe. É o que inventaram e eu vim a cair nessa, enfim… hoje em dia não acho que seja solução. Mas tem muita gente interessante nesse meio. Meus amigos são de lá. Indo para Londres… aí o futebol né. O futebol agrega as pessoas. Aí tinha gente do mundo todo… fico impressionado… gente do mundo todo sabe jogar bem. E eu descobri que eu não era tão bom.

Alexia: Olha Vitor você descobriu aí só que você não era tão bom?

Vitor: Todo mundo tem os pontos cegos né. O meu durou anos, décadas. E Londres é muito cosmopolita. Eu acabei fazendo os amigos mais duradouros que eu tive, apesar de muitos MBAs terem ficado aqui depois do curso… foram pessoas da América Latina… América Latina que estão fazendo mestrado e doutorado aqui e que moram aqui perto. Que é uma galera que tem, de novo, uma estrutura de sociedade muito parecida com a nossa. Eles têm histórias parecidas também… também de benefício de classe né…  de privilégio de classe como eu tenho. E estão estudando coisas interessantes. Então é um papo ótimo. E além disso, a África do Sul, Turquia, percebe que tem um padrão aí de tipo, países que são muito… que oferecem muitas dimensões diferentes?

Alexia: Sim, sim. Eu acho isso muito interessante você falar porque eu estou começando um flerte de amizade digamos assim… com um casal turco.

Vitor: É mesmo?

Alexia: Ela já está aqui há 3 anos… ela é arquiteta, veio para cá para estudar e está aqui há três anos. E ele, o marido dela, nossa idade também tá… tipo 32,33 no máximo… e o marido dela chegou a pouco tempo. Ela já fala português, e entende bem. Entende melhor do que fala. E ele nada… e a gente estava na fila da vacina. Que aliás, foi meu maior evento social em tempos, né. A vacina…

Vitor: Jura?

Alexia: Juro, mas assim… entrada do Rock in Rio. Eu me sentindo para um show. Foi exatamente isso. Eu fiquei 2:00hs naquela porcaria,  fiz amizade com 2 turcos. Fiz amizade com uma senhora portuguesa e foi isso. Foi entrada do Rock in Rio.

Vitor: Cara, dois turcos e uma senhora portuguesa no mesmo lugar?

Alexia: Incrível né? Olha, nem parece Portugal.

Vitor: Nem parece Portugal… aliás Portugal é um país só de senhorinhas portuguesas né?

Alexia: Sim, tudo velhota. Todos os velhotes juntos .E aí esse casal turco mora aqui perto e a gente está tentando se encontrar… sabe, aquele primeiro encontro entre casais tipo,o Foster ainda não conhece eles. E a gente vai tomar a segunda dose no mesmo dia, então a gente está combinando de ir juntos. Muito engraçado. Hoje em dia eu flerto amizades, é como eu flerto hoje em dia.

Vitor: Depois de uma idade tem esse ritual de namorico, né? Entre, entre… tem mesmo. É um negócio muito louco.

Alexia: E eu fico assim. Será que essa pessoa gosta de mim? Será que eu estou falando as coisas certas? Será que a gente gosta das mesmas coisas? É exatamente isso.

Vitor: Entre agora… deixa eu entrevistar você... entre essa sensação agora… de você ficar se perguntando se está agradando e aquela sensação na adolescência, quando você sentia isso nos seus grupinhos sociais e tal? O que você prefere? Qual você acha melhor?

Alexia: Ah, hoje em dia com certeza. Porque hoje em dia eu sei escolher as amizades um pouco melhor do que quando eu era adolescente. Por mais que você tenha vindo da minha adolescência, Vitor, vamos deixar bem claro isso aqui. Sim, as amizades de adolescência em geral são poucos os que eu levei para a vida. São pouquíssimos. Você conta no dedo. Enquanto aqui você já sabe mais ou menos o tipo de perfil de amigo que você quer. Não necessariamente tipo que não pode ser uma pessoa que você… que não tenha nada a ver com você entre aspas… sabe… você pode ter uma conversa com uma pessoa que pensa diferente, claro, respeito existe e todo mundo gosta. Mas não vai ser amigo, então você já sabe o perfil que você quer, para onde você vai.

Vitor: Concordo total, total.

Alexia: E eu sinto muita dificuldade de fazer amizade com portugueses aqui assim. Amizade, amizade. Porque conhecer eu tenho vários conhecidos e posso ligar para eles se acontecer alguma coisa. Mas amizade de chamar para jantar em casa né… sair para ir ao cinema. Sei lá, qualquer coisa.

Vitor: De falar, cara, estou passando aí em meia hora.

Alexia: É isso, é isso. Eu ainda não tenho, ainda não tenho.

Vitor: Entendi, cara, eu estou começando a ter agora assim. O único inglês que está envolvido nessa minha rede é um cara que passou anos no Peru, casado com uma peruana… meio peruana meio baiana. A gente estudou junto em Oxford. Mas enfim, a gente faz parte de um grupo maior assim. Mas, cara, é difícil também né… você está em Lisboa… Lisboa, enfim..

Alexia: Porto, eu estou no Porto Vitor. Não me xinga.

Vitor: Desculpa, desculpa, desculpa. Corta, corta.

Alexia: Obrigada Luisa… exato, exato. Que absurdo.

Vitor: Cara, você ainda tem quase meia hora comigo de conversa hein.

Alexia: Vambora, ué.

Vitor: Tipo... o Porto, Londres, são cidades diferentes mas enfim… tem milhões de pessoas né? Porto tem mais de um milhão?

Alexia: Não… não.

Vitor: Portugal é um país minúsculo, então…

Alexia: Portugal tem 200.000, não Portugal… Porto tem 200.000.

Vitor: Tá.

Alexia: Mas sim, sim, sim… tem diferentes nacionalidades.

Vitor: Esqueci meu ponto Alexia… esqueci meu ponto. Fui sacanear minha própria mulher e você…

Alexia: Não, mas olha só… é verdade esse negócio de amizade… de fazer amizade com portugueses em si.

Vitor: É, é verdade. Eu não trouxe amigos portugueses de Portugal por exemplo. Eu trouxe amigos de outros lugares. Até aqui… eu trabalho com portugueses mas eles não me dão bola não.

Alexia: Eles não te dão bola…

Vitor: É, eu sou muito fácil no trabalho. Tipo, eu me sinto uma piranha social assim… eu sorrio para todo mundo… eu faço piada, sabe? Eu sacaneio o chefe… tipo assim, sacaneio assim, de leve, sabe? O inglês também gosta de um humor autodepreciativo então eu ofereço um pouco disso para eles também. Cara, quem gosta de mim é assim egípcio, israelense, palestino, sírio… sabe?

Alexia: Bom, mas o seu perfil também parece né… do lado de lá.

Vitor: É, essa cara de mediterrâneo, é isso aí.

Alexia: Exato, exato.

Vitor: Se eu tivesse um olho um pouco mais verde eu podia ser iraniano.

Alexia: Sim, sim, com certeza.

Vitor: Que aliás… ei gente bonita hein.

Alexia: Muito, as mulheres de lá eu fico chocada, chocada. É uma coisa surreal. Os homens também, aqueles traços…

Vitor: Os homens são bonitos também. Não tem muito como mentir. Aquela região da Pérsia… filhos da puta hein.

Alexia: Sim, são impressionantes. Eu não sei porque que no meu super DNA que só vem Portugal, Espanha, Itália não podia ter um pouquinho de iraniano ali, podia né, ter alguma coisinha.

Vitor: E os teus amigos turcos, eles também têm essa aparência física também parecida? Porque o império Turco-Otomano foi gigante né. Tem turco louro, essas coisas assim.

Alexia: Não, parece mais normais, assim, entre aspas.

Vitor: Não anormais.

Alexia: Parece muito… morenos de olhos pretos assim… mas não tem traços fortes, sabe… no rosto… que você vira e fala ok é turco. Não, a princípio não, eu não acho que seja.

Vitor: Podia ser um mineiro, paulista…

Alexia: Mas também eles estavam de máscara né Vitor. Eu conheci eles de máscara. Eu não sei como é que eles são sem máscara. Que também tem isso, eu não conheço as pessoas sem máscara.

Vitor: Que troço voyeur.

Alexia: Muito…e aqui ainda é obrigatório usar máscara para tudo, tudo.

Vitor: Cara eu acho melhor. Aqui na Inglaterra o Boris Johnson está dando uma de populista assim. Liberou, liberou geral essa segunda-feira.

Alexia: Eu soube, vai dar o maior problema.

Vitor: Eu sou o único pateta andando de máscara.

Alexia: E te apontam na rua, né?

Vitor: Cara… apontam, apontam você?

Alexia: Não, porque eu sei que nos Estados Unidos se você estiver andando de máscara as pessoas ficam assim “ih, não foi vacinado” ou tipo “está com medo” sabe, uma coisa assim.

Vitor: Bom, Estados Unidos tem uma sociedade complicada, como nós também temos a nossa né. Não tiveram tempo suficiente para amadurecer, o que dizer…

Alexia: O que dizer. Bom, mas então hoje em dia você está com essas amizades, mas essas amizades vem da onde? Vem do trabalho? Vem da onde?

Vitor: Cara, esses latinos eu dei sorte de um belo dia, um belo sábado assim à tarde… quando o tempo está ficando melhor… eu estava na minha varanda… e minha varanda dá para um parque com um campinho de futebol. E eu vi uns camaradas jogando bola… quando eu contei, um, dois, três… era uma quadra de futsal e eram nove. E eu falei “pô, está faltando um ali”. Só que eu estava com mó vergonha. A Luísa tinha feito pão de queijo em casa. Eu falei “pô, vou ficar aqui em casa comendo pão de queijo vendo esses pernas-de-pau jogar”. E aí eu fiquei de saco cheio, a Luisa já estava de saco cheio vendo outra coisa…  e eu ficava vidrado naquilo. Lembrei até da minha mãe… uma vez ela me levou na Praia do Leblon para me ensinar história… que ela achava que eu não estava estudando direito… aí ela tentou tomar lição, tentou tomar lição, até que ela desistiu porque eu só ficava olhando para a galera jogando futevôlei e futebol. Igual cachorro correndo atrás de bola. Até o momento que eu estava aqui olhando eles eu perdi a coragem e aí eu desci todo… com o meu sapatinho…

Alexia: Ganhou coragem né. Ganhou coragem.

Vitor: Isso, ganhei coragem, obrigado. Perdi o medo e aí ficamos amigos. E aí estão todos com as namoradas ou mulheres e aí tem futebol direto, tem feijoada. Maneiro cara, maneiro, tem italiano, tem espanhol…

Alexia: Que legal. E é um grupinho bom assim, então, é um grupinho legal?

Vitor: É, eu gosto da galera que fala bobagem. Tipo assim, fala de sacanagem, coisas nojentas… e coisas acadêmicas.

Alexia: Eu nunca tinha percebido isso.

Vitor: Eu sei que não… eu disfarço muito bem. A gente nunca falou de nada sobre isso… a gente só fala de coisa inteligente.

Alexia: Olha, os meus encontros nos bares com você sempre foram assim, super formais. Uma coisa assim, incrível.

Vitor: Bares, bares foram assim… a segunda metade da nossa amizade. Porque a primeira metade era só tipo festinha com gummy.

Alexia: Eram sociais na casa de sei lá quem… aí você não era convidado e você ia tipo como o meu plus one… e entrava nas festas do pessoal lá do meu colégio, do Treziano, era tipo isso…

Vitor: Era o jeito de entrar nas patotas né… maçonaria… ninguém precisa de maçonaria com 15 anos. Os grupinhos já são chatos o suficiente.

Alexia: Já, já. E tinha aquele exchange, né, entre colégios assim. Estou cansada da minha galera do colégio eu preciso começar a entrar nas sociais do colégio dos outros. E aí depois veio as festas de 15 anos, que aí foi o começo das nossas festinhas mesmo.

Vitor: É, você bebia nas festas de 15 anos? Eu só passei a beber com 16.

Alexia: Não… Vitor, eu passei a beber com 21 e parei já. Assim, não existe mais bebida aqui em casa. É sério.

Vitor: Minhas ressacas são terríveis hoje em dia. Não, sério, sério, eu não tenho nenhum orgulho disso. Eu não consigo mais beber. Eu não bebo nem um terço do que eu bebia antes.

Alexia: E que bom né… porque você vai precisar ficar bebendo tanto?

Vitor: Cara, eu não sei se os poucos camaradas portugueses que você tem aí… quanto eles bebem. A rapaziada… os poucos ingleses que eu saio… não dá para acompanhar Alexia.

Alexia: É, é uma questão social mesmo. Eu entendo isso perfeitamente.

Vitor: Eu estudei com polones e russo.

Alexia: Mas é, é uma questão social também isso… você sair para ir para o pub né, aí para você conhecer gente, talvez você encontre um outro casal internacional. Porque uma coisa que eu vejo muito aqui é que as comunidades internacionais são muito mais juntas do que os próprios portugueses.

Vitor: Faz sentido. Bom… você está tendo que criar as suas próprias raízes né… como expatriada.

Alexia: Sim sim. Eu durante a pandemia arranjei um cachorro e esse cachorro me traz amizades na rua. Então assim, eu já conheço todo mundo do bairro.

Vitor: Caraca.

Alexia: Todo o mundo do bairro sabe o meu nome e o nome do Buddy. Está ótimo.

Vitor: Tá certo tá certo. Você é daquelas então…

Alexia: Eu sou, super daquelas. Todo mundo me conhece. E me lembro da época de Leblon, todos os porteiros conheciam a gente… a gente passava dando tchau, sabe. Exatamente igual aqui.

Vitor: Ai isso é muito maneiro. Eu fico muito feliz de ser amigo dos meus porteiros. Eu tenho um porteiro egípcio, tem um porteiro do Siri Lanka, que é o noturno, e o porteiro chefe da Lituânia. E eu não preciso de cachorro, viu? Só para tirar uma onda… eu não preciso de cachorro.

Alexia: Aqui não tem porteiro… aqui não tem porteiro.

Vitor: Eu sei, eu sei que não.

Alexia: Então aqui é um pouquinho diferente.

Vitor: Eu sou muito bem-sucedido, Alexia, na vida. Muito bem sucedido.

Alexia: Isso que eu ia falar…

Vitor: Mó sorte… eu moro num prédio bonzão né… mas eu já te contei que é um lugar que tinha facada… é lugar que só tinha puteiro, mecânico e facada… tipo, o triângulo da morte de Londres assim. Está melhorando agora, está tendo um Porto Maravilha assim. Muito desenvolvimento imobiliário aqui.

Alexia: Ah é?

Vitor: É, Londres é a capital da lavagem de dinheiro , né, do mundo. Todos os paraísos fiscais Ingleses terminam o processo de lavagem de dinheiro comprando imóvel em Londres. Assim que você consegue certificar a origem do dinheiro que veio de um branch nas Ilhas Cayman e esse certificado é o suficiente para passar debaixo do radar legal, né. Eu vivo num desses, eu acho.

Alexia: Isso que eu ia falar, você vive num desses. Você está cooperando para isso. Você está pagando o seu aluguel para alguém que eu não sei quem é…

Vitor: O mercado que é um ente despersonalizado que a afixa um preço e eu sou um dos poucos que consegue pagar.

Alexia: Mas é mais ou menos o que os chineses fazem aqui em Portugal né. Eles compram muitos imóveis aqui em Portugal, com malas de dinheiro vivo. Eles vem com mala de dinheiro vivo e compram assim… apartamentos super chiques ou então os que vão ser renovados na parte histórica, sabe. Que vão aumentar muito de valor. E eles são muito espertos com isso, muito espertos. Mas aí acontece a crise Imobiliária né… que nem os portugueses conseguem pagar as próprias rendas então… como é que vai ser isso. Enfim, aí vem a história de Portugal.

Vitor: Eu li sobre isso. Mas eu achava que isso eram os portugueses, tipo, leiloando o passaporte português para atrair investimento.

Alexia: Não não… quer dizer, pode até ser, mas o que eu escuto mais é isso dos chineses. E muitos brasileiros também né… os poucos ricos…

Vitor: É, 350.000 euros né, para comprar um imóvel na região histórica… 500.000 fora. Tem muito brasileiro com grana.

Alexia: É, hoje em dia tá tipo um milhão mais ou menos. Mas aí você pega um empréstimo no banco né… você paga uma boa parte e pega um empréstimo no banco e paga em 40 anos.

Vitor: Saquei, saquei. A legislação… o que a legislação diz… eu cheguei a olhar isso há uns atrás né… antes de eu conseguir o meu visto de trabalho aqui como brasileiro… eu tentei cavar um passaporte português e eu vi que a legislação mandava ah, meio milhão de euros de investimento imobiliário ou num fundo português para ele tirar um passaporte português ou residência portuguesa… depois passaporte.

Alexia: Sim, sim. O Foster, ele não está nesse, obviamente. Porque a gente não tem meio milhão de euros, se a gente tivesse eu não estaria aqui gravando com você nesse momento.

Vitor: Estaria sim. Essa conversa seria privada, esse é o ponto.

Alexia: Exato, exato. Essa conversa seria privada. Seria por puro prazer e não por obrigação. Mas o Foster, ele está com um que é, empreendedor, tem uma coisa assim… que você empreende em Portugal mas enfim… eu não sei direito… só sei que ele tem residência aqui e ele não precisa pagar os impostos aqui por 10 anos.

Vitor: Cara, isso é muito maneiro hein.

Alexia: Porque ele como americano precisa pagar para o resto da vida dele em qualquer lugar que ele more né. O que é uma loucura. Você também… ah você é americano também, é verdade…

Vitor: Cara, gastei uma fortuna. Minha empresa tem um plano de opções né, para funcionários nos Estados Unidos. E aí de novo, quem é americano, a receita federal dos Estados Unidos enfim, alcança você em qualquer lugar. Cara, eu tinha esquecido… eu fiz bobagem, eu esqueci de assinar um formulário lá que eu sou de fato essa pessoa. E uma pessoa americana. E aí os caras… eu já teria que pagar imposto de qualquer jeito, porque as ações estão lá… de ganho de capital. Pô, os caras tiraram uma mordida de 40% cara… caraca, fiquei puto.

Alexia: É muito dinheiro, é muito dinheiro. É muito dinheiro Vitor.

Vitor: Os caras dão bailout para banco…

Alexia: O Bezos está subindo lá no espaço fazendo a viagenzinha dele.

Vitor: Está lá de cueca.

Alexia: Exato, e a gente aqui pagando nossos impostos, sabe.

Vitor: Tudo bem, alguém tem que pagar imposto mas eu queria que eles também pagassem.

Alexia: Exato, eu acho justo. Eu pago meu imposto aqui feliz e contente. Eu não pago mais lá no Brasil. Eu pago só aqui. Mas cara, Vitor, eu estou fazendo todo o meu tratamento possível de fisioterapia, dentista… o que eu preciso pelo serviço Nacional de saúde. Então o valor do imposto que eu estou pagando assim… vai para saúde.

Vitor: Ao nível individual você vê que compensa.

Alexia: Muito,mas muito, muito, muito, muito, muito, muito. Todos os exames, as consultas e os tratamentos que eu já fiz nesses dois anos que eu estou aqui… e meu pai, que meu pai é dependente de mim, já compensa tudo que eu paguei de imposto.

Vitor: Cara, isso é muito interessante. Outro dia tava… eu cresci num lar neoliberal né, privatizante. E tipo, aqui na Europa a gente vê que isso é uma bobagem. É uma teoria sem nenhum… sem pé nem cabeça assim. Estava vendo quanto é que o SUS custa per capita no Brasil… custo real né, não nominal… cara, é um sétimo do custo per capita na Inglaterra. Então cara, num país desigual como é o Brasil… grande como é o Brasil… Brasil é do tamanho da Europa Ocidental… que mal consegue se governar. A gente quer ter uma saúde igual Alemanha… cara, então investe, bota o mesmo dinheiro que a Alemanha bota, sabe? Assim, não precisa nem melhorar a qualidade, sabe? Esquece Partido novo… bota mesmo o dinheiro, sabe.

Alexia: Eu torcia para o Partido Novo no começo né.

Vitor: Eu fui filiado cara. Até eu ver que… enfim, cara eu tive uma discussão com um vereador do Partido Novo que estudou comigo. O Pedro Duarte… vereador do Partido Novo no Rio de Janeiro. Ele é um cara privatizante. Até aí beleza…  ele estava usando uns argumentos que a gente tem muito mais estatal do que a média dos países da OCDE, que são os países ricos. E aí eu falei cara, a média da OCDE… assim eu estudei numa universidade muito boa aqui… só olhar o ranking mundial e ver onde que a Oxford está. Não vem falar essa estatística para cima de moi sabe. Tipo, você falar que a média… o Brasil é mais ou menos que a média de 180 países, sei lá… 70 países… sei lá quantos são…  não diz absolutamente nada. O que que a Coréia do Sul tem a ver com a Itália, nada. Enfim, basicamente o argumento era o Brasil tem estatal demais, Brasil tem muito funcionário público… quando na verdade o Brasil tem uma das menores taxas de funcionário público per capita também. O Brasil tem muito menos estatal do que países mais pobres e mais ricos… então o que significa… nada. Só diz para a gente que o número de estatais não é relevante para análise, ponto final, sabe.

Alexia: É, eu parto do princípio, eu realmente… eu acredito nisso… tipo assim as pessoas falam “ah, porque se pegar o governo de Portugal, e colocar…” porque é social-democrata né… “e botar no Brasil com certeza ia dar certo. Gente, não ia… porque o Brasil ia afundar em dois tempos. Não tem como você fazer isso do nada no Brasil. Você tem que ter um momento de transição né. Principalmente na época que a gente está agora no Brasil. Você não consegue fazer isso do nada, até porque Portugal chegou onde chegou também, depois de muitos anos de ditadura, estado novo, e aí veio o nosso social-democrata de hoje em dia. Mas Portugal tem o que, 11 milhões de habitantes enquanto o Brasil tem 200 e poucos milhões de habitantes.

Vitor: Portugal está…

Alexia: Então assim…

Vitor: Desculpa.

Alexia: Não, não… é só uma questão…  para você ter os mesmos benefícios que os portugueses né… nós, residentes, portugueses, etc temos… teria que fazer uma injeção muito alta na saúde, no Brasil, em refazer toda questão de ministérios, etc, etc. Ninguém quer né Vitor, todo mundo é uma máfia lá… então ninguém quer fazer isso.

Vitor: Cara muito louco. Antes da gente entrar nesse assunto… só uma questão tipo meta assim… morando fora do Brasil você se sente mais ou menos politizada?

Alexia: Muito mais. Tá… isso foi uma coisa que eu cresci também. Antes no Rio não é que eu não ligava, mas política era uma coisa tipo… tá, quem ganhar, ganhou… sabe? Não vai mudar nada na minha vida porque eu sou essa menina da Zona Sul que tem tudo o que os meus pais me dão. Era exatamente isso. Aí eu conheci o Foster, Foster veio dos Estados Unidos, Obama… e foi quando ele começou a se interessar pela política de lá. E nós juntos começamos a conversar um pouco mais sobre isso. Mas nunca nos inteiramos completamente. E aos poucos a gente viajou juntos né… para os Estados Unidos, Obama e Trump. A gente foi para o Chile, a gente foi para Argentina, a gente foi para o Uruguai, que é o nosso país preferido da América do Sul, a gente ama o Uruguai de todas as formas possíveis… a gente veio para Espanha, a gente foi para Inglaterra, a gente veio para Portugal. Quando a gente junta essas experiências que a gente teve em cada lugar, como fomos tratados, os tipos de necessidades que a gente teve em cada lugar… a gente já sabe muito bem o que a gente quer para nossa vida, principalmente em relação a política… é exatamente isso.

Vitor: E não é um estado burro mínimo né.

Alexia: Não, não. A gente não pode ser ingênuo. A corrupção existe em todo o lugar… claro que sim, óbvio que sim. Isso vai existir. Enquanto existir política vai existir corrupção, é óbvio. Mas você tem que exigir um mínimo do Estado… então aqui eu tenho a saúde. É o que eu exijo.

Vitor: O estado necessário né. Não precisa mais que o necessário.

Alexia: E vocês também né?

Vitor: A mesma coisa. Aqui depois do meu período de Oxford e trabalhando muito tempo com inovação… eu trabalho dentro de grandes empresas né… e aí eu desmistifiquei essa lenda, eu desconstruí essa lenda de que as empresas privadas são melhores que empresas públicas. Eu também trabalhei com a Petrobras, e a Petrobras enfim tem a mão do governo firme no Brasil… e concurso público e tal… então, cara, eu atualizei muito as minhas convicções adolescentes e superficiais assim. Grandes empresas são grandes demais para serem ineficientes… para serem boas para o funcionário e sabe… para serem boas para a economia também, porque concentra muito. E capitalismo, enfim, ismos são sempre uma burrice né. Mas tipo, qualquer coisa que não seja totalmente socialista só funciona por causa da concorrência. Se você tem um mercado muito concentrado, como é no Brasil, como os Estados Unidos estão agora, você começa a ter uma dificuldade muito grande de tipo… de bons serviços, de inovação… enfim, de uma política que representa realmente a opinião das pessoas em vez de só do poder do dinheiro.

Alexia: Você fica estagnado né… você não consegue ir para frente. Você fica estagnado.

Vitor: Na verdade você está estagnado porque, enfim, funciona muito bem para quem é o dono do jogo, né.

Alexia: Exato, exato.

Vitor: Antes da gente fechar, a gente está falando de imposto, e está falando de como viver nesses países que têm sociais democracias e tal, cara, tem uma parada muito louca que está rolando no mundo agora que é uma… se olhar a grana, tipo, como é que o capital corporativo está concentrado em tipo, 40 logomarcas, uma coisa assim… tipo de controladoras, sabe... e a maioria delas são instituições financeiras… a gente vê quem é que tem bala na agulha para, tipo, influenciar a política pública… influenciar a eleição legislativa, que é a parada mais chave que tem,né. E aí a gente vê, tipo, porque as democracias estão na verdade com dificuldade. Porque quem tem dinheiro consegue, enfim, bancar um deputado que vai chegar lá e, cara, vai ser um powerbroker… vai ser um traficante de influência, sabe?

Alexia: Sim, sim. Mas é exatamente isso… eu concordo plenamente. Agora Vitor, vamos lá, eu estou perguntando isso para todo mundo tá. Se você tivesse que indicar um lugar no Brasil… tirando os clichês tá… Rio de Janeiro, São Paulo, Salvador, que é clichê também, Floripa…

Vitor: Eu não sei nem qual é a pergunta.

Alexia: Calma, tirando os clichês… um lugar para o pessoal visitar no Brasil. Aquele lugar que você talvez nem queira divulgar aqui, sabe? Um lugar muito especial para as pessoas visitarem.

Vitor: Chapada Diamantina.

Alexia: Sabia, sabia, sabia, sabia, sabia. Ai, até machuquei a minha mão.

Vitor: Não vão, não vão… vão um de cada vez.

Alexia: Sabia… eu nunca fui, eu nunca fui.

Vitor: Cara, animal, animal. É o tipo da coisa… a gente é muito ignorante né…  viajar pelo Brasil é muito caro. A gente só vê Manuel Carlos, só vê Leblon na televisão… só vê o carnaval do Rio ou de Salvador. A gente é muito ignorante… ou Amazônia.

Alexia: Tá, ok, claro, claro.

Vitor: É uma loucura.

Alexia: Eu nunca fui.

Vitor: Cara, eu fiz um cruzeiro no Rio Negro que foi tipo a viagem mais luxuosa que fiz na minha vida. Não é um coisa horrível que é você pegar um cruzeiro para Miami, sabe? Não, estou falando, tipo, de uma comida manauara tradicional. Cara, não existe comida melhor… é um peixe tipo dinossáurico, sabe… com uma farofa…

Alexia: Que veio do rio naquela hora, que veio do rio naquela hora.

Vitor: Muito bom, muito sofisticado. E dentre todas as coisas caras que você pode pagar… com certeza um cruzeiro no Rio Negro não está na lista da maioria das pessoas, sabe.

Alexia: Não está na minha por exemplo. Eu iria antes para a Chapada do que para um cruzeiro no Rio Negro, vou ser sincera.

Vitor: Foi o que eu fiz. Mas ir para a Chapada é muito mais barato também.

Alexia: Também.

Vitor: Mas tá aí… duas coisas que valem a pena.

Alexia: E aí minha última pergunta é, o Vitor que viajou para Coimbra, fez o primeiro intercâmbio dele sozinho, com os amigos, etc, etc. Com o Vitor de hoje em dia, tipo assim, morando fora já… há quanto tempo? 4 anos, 5 anos?

Vitor: Ah, por aí, 4 anos.

Alexia: Qual é a maior diferença que você vê na sua cabeça… mentalidade assim… amadurecimento? O que você vê assim de diferença? Eu me vejo com uma capacidade de adaptação tremenda. Se amanhã eu tiver que ir, por exemplo, morar no Egito… eu vou, sabe? Eu não teria problema em fazer esse tipo de mudança. Porque a minha cabeça é tão aberta para novas culturas, para novos lugares, para tudo novo, que eu vou. Então essa é a Alexia, a Alexia diferente de viagem para a Alexia diferente de morar fora, sabe?

Vitor: Interessante, muito interessante isso que você falou. Para mim é um pouco… eu usaria um ângulo diferente. Eu acho que por mais que eu seja atirado para fazer as coisas, uma parte de mim sempre foi um pouco vira-lata, assim, ou com gringo. E o que eu aprendi aqui é que… a gente… nós do Brasil, que tivemos oportunidade de nos aprimorar, estudar, viajar e tal. Cara a gente não deve nada a gringo algum, em qualquer círculo assim profissional. Eu acho que é isso para mim que ficou muito claro. Depois de 4 anos eu não tenho medo de absolutamente nada profissional. E eu trabalho numa indústria de inovação digital… num dos centros do mundo né… muito competitivo e nada me põe medo assim… nenhum desafio profissional me põe medo.

Alexia: Que bom. E antes com certeza você estaria meio que tipo “ah, não sei se eu sou capaz”.

Vitor: Eu vim para cá, queria fazer um MBA internacional porque eu achava que, enfim, os brasileiros… bom mesmo é o gringo, né.

Alexia: É, é.

Vitor: Então isso já diz um pouco como era o meu subconsciente assim. Talvez até o meu consciente… de que o gringo é melhor né.

Alexia: É engraçado, isso é muito interessante porque eu nunca tive que experimentar o mercado profissional fora né porque, enfim, eu trabalho para mim mesma, para minha própria empresa. Mas é uma coisa que talvez isso me deixaria um pouco balançada, sabe? Tipo, será que eu sou realmente capaz ou não? E eu escutando você falar isso que finalmente você chegou a essa conclusão de que não deve nada a ninguém, que se dane você é muito bom mesmo… sendo brasileiro, turco, o que for… que depende realmente da sua personalidade, seu caráter, daquilo que você oferece ao trabalho… é realmente o que importa e não a sua nacionalidade. Exatamente isso.

Vitor:  É isso aí, é isso aí… já daria um outro episódio né, só falando sobre isso.

Alexia: Que lindo. Vamos, vamos fazer isso depois. Então Vitor, obrigada por ter participado aqui do Carioca Connection, espero que você tenha gostado. A Luiza vai vir participar com a gente também. Estou ansiosa para ver o ponto de vista dela, que não sei se é igual ou não, então vamos ver o que que ela tem para falar.

Vitor: Eu quero acreditar que a gente é muito diferente então… espero que seja um ponto de vista diferente, novo.

Alexia: Ótimo, então tá, obrigada.

Vitor: Um beijo, obrigado você.