🇬🇧

Do Sul do Brasil para Londres com a Luiza!

image

💡

Oi pessoal! Hoje quem está aqui é a Luiza. A Luiza é uma grande amiga minha, ela é casada com o Vitor que tem um outro episódio dele por aqui. E ela mora em Londres, e está aqui para contar a sua experiência ao sair de casa, ao sair da sua cidade lá no Brasil. Ela é do sul do Brasil, então vocês vão reparar que o sotaque dela é um pouco diferente do meu. E o que mais? Ela se mudou para o Rio de Janeiro, do Rio de Janeiro ela sempre gostou de viajar sozinha, então ela tem muita experiência já com viagem, mas ela está aqui para falar as suas perspectivas e o seu dia a dia, digamos assim, em Londres, na Inglaterra. Espero que vocês gostem!

Transcription

Alexia: A minha primeira pergunta pra você é, da onde você é no Brasil? Porque todo mundo vai reparar que o seu sotaque é um pouco diferente do meu e das outras pessoas que já passaram por aqui. Conta um pouquinho pra gente.

Luiza: Eu sou de Porto Alegre. Eu não sei o quão porto alegrense meu sotaque ainda é, porque eu não moro em Porto Alegre desde 2013. Eu sempre acho que o meu sotaque já tá bem mais neutro, mas eu acho que todo mundo acha que o seu sotaque é meio neutro, então… Eu sou de Porto de Alegre, eu morei lá a vida toda até 2013, então até os meus 26 mais ou menos, acho. E aí eu morei no Rio por 4 anos antes de vir pra cá.

Alexia: Eu lembro, quando eu te conheci o seu sotaque era mais forte sim. Eu tenho que admitir.

Luiza: Era.

Alexia: Era mais cantado assim, sabe? Porque o seu R continua, mas era mais cantado.

Luiza: É sim. No Rio também sofre muito bullying com sotaque, então eu acho que o Rio me obrigou um pouco a pegar uma cadência um pouco mais carioca mesmo, que eu nunca matei o R e o ‘shhh’.

Alexia: Você sofreu bullying mesmo?

Luiza: Muito bullying, sim.

Alexia: É sério?

Luiza: Uhun. No trabalho eu sofria muito bullying, as pessoas ficavam me imitando, aí falavam, “Não, porque lá em Curitiba vocês falam assim…” Eu falava, “Eu não sou de Curitiba, eu sou de bem longe de Curitiba. Nada contra Curitiba, mas é outro estado.” Enfim…

Alexia: Você é a primeira que é do sul daqui. A gente já teve uma pessoa do nordeste, a maioria é carioca que não tem como escapar, que são a maioria das pessoas que eu conheço mesmo. Mas conta um pouquinho como é que é o sul do Brasil assim. Tem clima frio, que a gente já está vendo que está nevando hoje em dia lá, que é uma coisa surreal. Mas conta um pouco do sul, do que esperar das pessoas do sul.

Luiza: Tá. Então, eu sou do Rio Grande do Sul, eu só posso falar do Rio Grande do Sul e um pouco de Santa Catarina litoral. O sul, no geral, é muito diverso, né? As pessoas acham que não, mas é meio que nordeste assim, sabe? Quem é do nordeste falar que é do nordeste, não é uma coisa só, né? Então eu, na verdade, nunca nem fui para o Paraná. O Rio Grande do Sul, o que esperar das pessoas? Bom, o clima, vamos começar pelo clima. O clima de Porto Alegre é um clima bem ruim, ele é muito temperamental, tu tem quatro estações no mesmo dia. Às vezes, especialmente no inverno, às vezes de manhã está 5 graus, ao meio dia está 25, aí de tarde chove e aí no fim da tarde cai granizo e de noite está 2 graus, sabe?

Alexia: Ou seja, todas as estações em um dia só.

Luiza: Em um dia, é assim. O inverno é bem frio, chega a ficar zero graus, talvez chegue a ficar menos alguma coisa, mas muito raro e só assim, por duas semanas, mas o inverno chove muito. Inclusive, eu falo que eu me adaptei bem à Londres, porque o clima não é tão diferente, sabe? As pessoas reclamam, mas o clima em Porto Alegre é bem difícil. E no verão é muito quente, chega a fazer 45. No verão chega a ficar mais quente que o Rio, mas…

Alexia: É, porque deve ser tipo uma estufa, né? Deve ser muito quente lá.

Luiza: É muito quente, mas eu não sei bem porquê, porque a gente tem um rio muito grande, né? Então era pra ser um pouco mais fresco, eu não sei explicar bem qual o problema do clima lá, mas é um clima que eu acho difícil, eu sempre achei difícil de tolerar o inverno, especialmente o inverno de lá, porque no verão, toda Porto Alegre se muda pro litoral norte do estado que é Tramandaí, Capão da Canoa, Xangri Lá, enfim, lugares que cariocas não conheceriam, porque não é uma praia bonita, mas é pra onde a gente vai todo final de semana. Então Porto Alegre fica uma cidade fantasma no verão, porque realmente é muito quente. Mas, no geral, é legal, é uma cidade bonita. A cultura das pessoas é muito diferente do Rio assim. Pra mim, me mudar pro Rio foi um choque cultural muito grande.

Alexia: Essa seria minha próxima pergunta. Assim, vamos esquecer que eu te conheço e todas as perguntas que eu vou fazer aqui eu meio que já meio que sei a resposta, mas enfim, porque você se mudou pro Rio, o que te deu o empurrão para sair de Porto Alegre e começar a se mudar, a morar “fora de casa.”

Luiza: Então eu decidi que eu queria mudar pro Rio quando eu tinha 16 anos. A primeira vez que eu fui para o Rio eu tinha 6 anos, a minha tia avó tinha casa lá e eu sempre tive família lá. E eu fui acho que no final do terceiro ano do colégio e pensei, “Ai… Eu queria mesmo era morar aqui.” Sabe? Só que, enfim, faculdade, aquela coisa toda. Aí no meio da faculdade eu ainda tentei fazer um intercâmbio pro Rio, mas foi bem naquela época que estava o exército na rua e dando um monte de problema, sabe? Aí eu lembro que meu pai falou, “Não. Nem pensar tu vai morar sozinha no Rio de Janeiro com 20 anos.” Aí eu acabei fazendo intercâmbio para a Alemanha. Veja bem, minha segunda opção foi… Porque meu sonho era morar no Rio, enfim, posso falar de morar na Alemanha também, mas...

Alexia: Sim, na verdade, o que as pessoas entendem do sul é que teve uma migração há muito tempo dos alemães, holandeses e provavelmente países nórdicos.

Luiza: Italianos, muitos italianos.

Alexia: Italianos também. E você vem de uma família imigrante também ou não?

Luiza: Sim. Os meus dois sobrenomes são alemães, mas é uma coisa muito distante, sabe? A minha família do interior mora numa parte da colônia alemã, que a gente chama, mas a colonização foi em 1860. Então assim, algumas pessoas do interior se sentem um pouco próximas da cultura. E não é nem da cultura alemã, é da cultura da época, sabe? Porque eu conheço a cultura da colônia e eu conheço a cultura alemã, porque eu morei na Alemanha e é completamente diferente. Se um alemão chegar lá, ele não reconhece nada, mas é o que a gente criou como cultura gaúcha-alemã e gaúcha-italiana que é bem forte também. Eu acho que a imigração italiana foi mais depois da Segunda Guerra e a alemã foi antes. Posso estar completamente errada, mas é isso que eu acho que é, desculpa se eu errei. Mas a alemã com certeza começou em 1860, uma coisa assim, que é quando inicialmente a minha família teria vindo. Aonde que eu queria chegar com isso?

Alexia: Não… Por que você foi para a Alemanha? Por que foi uma segunda opção ir para a Alemanha?

Luiza: Ah, minha primeira opção era ir pro Rio, porque eu sempre quis morar no Rio. Eu estou chegando em porquê que eu me mudei pro Rio. E Alemanha porque minha mãe já tinha morado lá, porque eu já tinha feito um pouquinho de curso de alemão, eu tinha muita curiosidade, foi minha primeira viagem internacional. Minha mãe morou lá quando eu era criança, então eu visitei ela por um tempo. E eu tinha lembranças muito boas de Munique. E aí acabou que eu consegui uma bolsa pela universidade federal do Rio Grande do Sul e eu fiquei um ano lá estudando alemão e cultura alemã, e não arquitetura que era o que eu estudava, porque não sei, foi o que eu consegui. Eu só queria ter uma experiência diferente na realidade, nem era para adiantar a faculdade, para estudar, tipo, arquitetura nem nada. Só realmente queria conhecer outras coisas porque eu acho que especialmente quem mora no sudeste não se dá conta de quanto o sul é separado do resto do país. Então, até eu me mudar pro Rio, eu nunca tinha conhecido um mineiro, por exemplo. Porque as pessoas não migram para lá.

Alexia: Eles estão em todos os lugares.

Luiza: Não no Rio Grande do Sul, não estão lá.

Alexia: Luiza, a coisa mais engraçada que eu pude escutar, porque…

Luiza: Eu só me dei conta quando eu conheci no Rio. Eu pensei, “Da onde essa pessoa é? Que jeito engraçado de falar.” Sabe? “Que diferente.”

Alexia: Mineiro.

Luiza: Que não é muito diferente.

Alexia: Não. A comida deles é ótima, o sotaque é uma delícia e pronto.

Luiza: Mas aqui, enfim, tudo é muito caro, muito distante pra gente. Então a gente vai pra Santa Catarina, vai pro interior… Desculpa, pro litoral. Meu pai, por exemplo, mora em Floripa, porque muita gente se muda especialmente por causa do clima, né? A gente gosta de praia, a gente gosta de calor e natureza, e enfim. O interior do Rio Grande do Sul é muito bom também em termos de natureza, é muito relaxante. A gente é um povo de fazenda e cidades pequenas, mas cidades pequenas ricas, então é interessante o interior também, mas a gente geralmente prefere se mudar para praias lindas, então muita gente se muda para Santa Catarina ou para o Rio, né? Tem muito gaúcho no Rio também.

Alexia: Eu imagino que talvez para o Uruguai também? Pela distância.

Luiza: É, a gente passa o verão no Uruguai. O Uruguai é como se fosse uma extensão do Rio Grande do Sul pra gente.

Alexia: Sim, o que era, na verdade.

Luiza: É. E é uma cultura muito próxima, né?

Alexia: Eu amo o Uruguai.

Luiza: Ah, eu também amo.

Alexia: Amo. Se eu pudesse escolher qualquer outro lugar na América do Sul que não fosse o Brasil pra morar, seria o Uruguai. Seria minha opção número 1.

Luiza: É muito bom. Eu tenho amigas que moram lá e amam. E pra gente, enfim, a comida é parecida, sei lá, toda a nossa cultura, eles são gaúchos também, né? Aquela região, Argentina, Uruguai, Rio Grande do Sul, tudo é muito parecido. Então a gente se sente muito em casa lá também. Então a gente acaba se descolando um pouquinho do Brasil e sendo um pouco diferente, sabe?

Alexia: Tem aquela piada, né? Que o sul vai pedir independência do Brasil, vai se tornar um país. Tudo bem que tem os fazendeiros e etc, mas eu não acho que sejam completamente auto suficientes pra isso.

Luiza: Não, de jeito nenhum. Primeiro que a gente precisa de praia, né? Não.

Alexia: Não tem como.

Luiza: Então, eu já pensava em me mudar pro Rio desde muito tempo. E quando eu estava pra me formar, eu conheci o Vitor, meu marido, e convenientemente Carioca. E aí ele me ajudou muito assim a me estabelecer, achar um lugar e conhecer melhor a cidade, conhecer vocês.

Alexia: Sim, fazer amigos.

Luiza: Ter amigos, é. E foi isso, eu me mudei exatamente um dia depois da minha formatura da faculdade.

Alexia: Eu lembro quando você estava montando aquele apartamento em Copacabana que estava um calor horrível.

Luiza: O menor apartamento do mundo.

Alexia: Um calor, um calor, eu lembro disso. E você tinha algum tipo deadline para se mudar, alguma confusão que estava tendo, não lembro especificamente o que.

Luiza: Sempre tem. Mudar nunca é tranquilo, né? E olha, continuo... Não importa quantas vezes a gente se mude, continua não sendo tranquilo.

Alexia: É insuportável, é um saco.

Luiza: Desses 8 anos que me mudei de Porto Alegre, eu já me mudei 8 vezes de casa/cidade/país. Então sempre é um perrengue.

Alexia: Então vamos lá, você saiu de Porto Alegre e aí a primeira vez foi para a Alemanha. Ficou quanto tempo mesmo em Munique?

Luiza: Um ano.

Alexia: Um ano?

Luiza: Um ano. Eu não fiquei em Munique, eu fiquei em Heidelberg, que é perto de Frankfurt. É em outro estado, mas é no sul também.

Alexia: E como é que foi essa primeira experiência para você, assim, porque a primeira vez viajando sozinha, se mudando sozinha… Não?

Luiza: Não. Na verdade eu sempre tive uma vibe estranha de viajar sozinha. Então a primeira vez que eu viajei sozinha foi quando eu passei na faculdade, porque eu passei para a universidade federal do segundo semestre, então eu fiz o vestibular em janeiro, passei, mas as minhas aulas só começariam em agosto, porque eu não passei nos primeiros 50, né? E aí eu tinha, muito aleatoriamente, eu tinha umas vacas na fazenda da minha avó e eu vendi elas todas. Isso é uma coisa muito gaúcha para quem está sendo exposto pela primeira vez à cultura. E eu passei 2 meses viajando sozinha na Europa. Tipo, meus pais tem zero… Sei lá, não sei o que meus pais pensaram, eu não sei se eu deixaria um filho meu fazer isso, mas eu comprei uma passagem de ida para Barcelona e de volta por Londres e eu tinha lá meu dinheirinho. E eu fiquei dois meses, tipo, ficando num lugar e pensando, “Ah, acho que eu vou pra outro lugar.” E eu aí eu viajei por alguns países com muita sorte, porque na minha cabeça a Europa… A gente mora no Brasil, a gente pensa, “Nada nunca acontece na Europa. Não existe crime, não existe nada.” E assim, sei lá, Deus protege.

Alexia: Mas é. Até porque naquela época era o que, época de Orkut? Não tinha tipo Instagram do jeito que tem hoje em dia, nada.

Luiza: Nem Facebook, nem smartphone, nem nada. Eu tinha um celular, mas eu nem trouxe o meu celular, porque não ia pegar aqui.

Alexia: Pois é.

Luiza: Não tinha internet, eu não tinha um Blackberry. Não, eu ligava… Tinha umas lan houses. Eu achava lan house e aí ligava pra casa, pagava ligação internacional super cara, isso foi em 2006. Ou seja, não tinha nada. E aí, 2009 foi quando eu fiz um intercâmbio para a Alemanha. E aí foi tranquilo, porque é uma experiência de estudante fora, é diferente de uma experiência de se mudar para trabalhar e tudo mais, sabe? Então eu tinha uma bolsa bem modesta do governo alemão, na verdade. E eu tinha aula de manhã até o meio da tarde. Meus amigos não eram alemães, porque obviamente nenhum alemão está estudando alemão, então eu não conhecia quase nenhum. Era meio fazer festa, juntar dinheiro para viajar e estudar. E eu estudava bastante, não era das pessoas que não estudavam.

Alexia: Aplicada.

Luiza: Até quando terminou meu curso, eu ainda ganhei uma bolsa para estudar mais um mês, porque eu tinha sido uma das melhores da minha turma, eu estava realmente muito aplicada. Eu consegui falar alemão fluente em um ano e enfim, eu acho que eu fiz valer a bolsa que eles me deram.

Alexia: E como é que está o alemão hoje em dia?

Luiza: Zero. Não falo uma palavra, porque tem dez anos e não tem onde falar, sabe? A Paula, uma das minhas melhores amigas, ela, depois dos primeiros 6 meses que eu estava lá, ela se mudou pra lá também. Então quando ela voltou, 6 meses depois de mim, a gente se juntava com a avó dela que era alemã e fazia tipo quartas-feiras falando alemão. Então a gente manteve por um tempo. Hoje em dia ela mora na Alemanha, então ela continuou com a vibe alemã. E eu, quando eu vou pra lá, eu consigo pedir informação, sei lá, pedir socorro, mas falar mesmo assim não falo, porque é que nem inglês, que nem tudo, né? Que nem até português agora que eu não escrevo em português nunca, falo pouco, a gente vai perdendo um pouco sem o costume.

Alexia: Sim, porque praticamente o seu único contato em português no dia a dia é o Vitor, né? Então…

Luiza: É, exatamente.

Alexia: É normal, é normal. Eu, quando vou para os Estados Unidos e passo só 3 meses falando inglês todos os dias, eu já sinto… não dificuldade, mas eu já sinto uma diferença na minha cabeça. O que é normal, porque é imersão cultural. Não tem como você escapar.

Luiza: E é engraçado, tem coisas… O que eu faço hoje profissionalmente eu nunca fiz em português. Então quando eu tenho que explicar o que eu faço é até difícil, porque eu nem sei que termos usar, porque eu faço uma coisa que é específica pro mercado daqui e para traduzir para como isso funciona no Brasil é estranho. E é muito chato tu falar porutugês usando várias expressões em inglês, né? É uma coisa meio prepotente assim.

Alexia: É meio esnobe, digamos assim.

Luiza: É.

Alexia: As pessoas vem, “Powerpoint” e não powerpoint.

Luiza: É. Mas é que, na verdade, não sei, talvez para algumas pessoas não seja, mas no geral é uma preguiça de traduzir, uma preguiça de parar e traduzir, só usar os termos que tu usa no teu dia a dia.

Alexia: Sim, é normal. Então tá, aí você foi para a Alemanha, aí você voltou e foi pro Rio. Aí ficou no Rio, e aí, um belo dia você decidiu se mudar para Londres, como é que foi isso?

Luiza: Não. Eu fiquei 4 anos no Rio, e eu e Vitor, desde que a gente se conheceu, a gente falava em ter uma experiência em outro lugar, sabe? Ele já tinha morado em Coimbra, em Portugal, mas ele também tinha vontade de morar num lugar diferente, fazer uma coisa diferente, porque ele morou boa parte da vida dele só no Rio, então seria interessante ter essa experiência depois da faculdade, sabe? Porque, de novo, o intercâmbio da faculdade é uma bolha, eu não acho que compare a morar fora, porque você está tão protegido de tudo, sabe? E é sempre por um tempo determinado, um tempo definido. Um ano, 6 meses, alguma coisa assim.

Alexia: É, você vai com passagem de ida e de volta. O que pode acontecer é abrir a sua cabeça para você, “Ok, eu quero mais disso, eu quero fazer mais disso.”

Luiza: É, sim. Mas dificilmente tu vai conhecer pessoas locais. Acho que a maioria das pessoas que fazem intercâmbio acaba tendo amigos também intercambistas de vários lugares do mundo, então assim, muda muito a tua cabeça, mas tu não conhece tanto as pessoas do lugar quanto morar para trabalhar, né? Para construir a tua vida, sim. Não, eu tinha muita vontade de fazer um mestrado até no Brasil mesmo, só que era muito difícil. É difícil parar de trabalhar dois anos e, enfim, pagar aluguel, tem que… O Rio é uma cidade muita cara. E o Vitor também tinha vontade de estudar um pouco mais, ele queria fazer um MBA, estudar business. E aí a gente pesquisou muito e chegou um ponto que os dois tinham trabalhos que gostavam e que estava, enfim, a gente estava bem. Não era assim, a gente saiu do Brasil porque a gente não gostava… A gente só queria ter uma experiência diferente. E a gente também via que tipo, depois… Aquela época tipo, em 2013-2014 que o Brasil já estava um pouco na crise, a gente via que o nosso crescimento profissional também estava um pouco limitado, sabe? Eu gostava de onde eu trabalhava, eu gostava do que eu fazia, mas eu não via muito para onde ir além disso, então a gente pensou, “Ah, vamos sair, fazer alguma coisa diferente e estudar.” Então a gente conseguiu ser aceito em universidades muito boas aqui na Inglaterra e deu um jeito e veio estudar. Então o primeiro ano que a gente ficou aqui… A gente juntou bastante dinheiro também, esse foi o ponto. A gente ficou esses três anos, quatro anos fazendo tudo que a gente podia para juntar dinheiro, porque a gente sabia que aqui ia ser complicado, sabe? E foi, porque quando a gente se mudou em 2017, o real estava… A libra estava 4 reais. Quando a gente se formou, a libra já estava 6 reais e pouco. E agora chegou a 8, então…

Alexia: E nunca mais baixou.

Luiza: Nunca mais. Então, na verdade, a minha ideia era, pela primeira vez na vida, só estudar por um ano, porque eu sempre trabalhei. Durante a faculdade, eu comecei a trabalhar no segundo período da faculdade. E até quando eu estava trabalhando no Rio, eu estava fazendo pós e eu tinha um trabalho, eu fazia freela, então eu estava sempre estudando, trabalhando e fazendo freela. Quando eu cheguei aqui eu falei, “Não, eu vou me dedicar 100% a esse mestrado e é isso.” E deu certo por 6 meses, mas aí meu dinheiro acabou. E aí eu tive que achar um emprego e eu tive muita sorte de conseguir um emprego, que não foi um emprego ideal, era um lugar que eu não gostava muito de trabalhar. Eu era muito mais qualificada do que eles me pagavam, sabe? Mas…

Alexia: Mas serviu para aquele momento, né? Na verdade.

Luiza: Serviu para aquele momento. Assim, pra mim era bom porque eu precisava ganhar qualquer coisa. Eu ganhava muito abaixo do mercado, mas era bom porque pelo menos eu estava fazendo alguma coisa relacionada com o que eu queria trabalhar, então eu teria tranquilamente trabalhado numa livraria, trabalhado num café, mas eu dei sorte de alguém me achar no Linkedin e falar, “Ah, não quer trabalhar com a gente fazendo esses projetos aqui?” E aí, no fim foi ótimo, foi mais confortável também, porque comparado a trabalhar num café ou numa livraria, eu ganhava mais por hora, então eu podia trabalhar menos horas e terminar meu mestrado relativamente tranquila. E aí, quando eu me formei, eles me deram o visto de trabalho. Então a gente pode ficar aqui por causa dessa empresa que, enfim, sou muito grata à eles e tudo mais.

Alexia: Que bom.

Luiza: E eu acabei ficando dois anos trabalhando lá. É, deu tudo certo assim. Não era exatamente o que eu queria fazer quando eu comecei a fazer, mas foi maravilhoso assim. E o meu chefe, inclusive, era português, o que ajudava muito, porque a gente tinha uns projetos em Portugal e ele precisava de alguém que falasse português, então útil ser bilíngue.

Alexia: Isso é o máximo, porque isso mostra o quão Londres é internacional e isso também ajuda muito. Porque eu estava falando, por exemplo, hoje com um menino que está em Singapura. Ele veio conversar com a gente, o Nuno, e ele fala que, se você é internacional em Singapura, é muito difícil de você conseguir um emprego, sabe? Tipo assim, tem, mas eles ficam assim, “Ah, eu prefiro contratar alguém daqui.” Sabe?

Luiza: Uhun.

Alexia: E aí, por exemplo, lá também você pode ser mandado embora a qualquer momento e sem justificativa.

Luiza: É, aqui também.

Alexia: E ele fala assim, “Bom, eu estou na Singapura, num lugar completamente asiatico, né? Tem a comunidade internacional, mas um pouco mais diferente.”

Luiza: Sim.

Alexia: E eu vejo que Londres, assim, é muito legal de morar, óbvio, é uma super metrópole, é uma cidade incrível, tem muita gente internacional, isso ajuda bastante, mas como é que foi pro visto? Foi por causa do trabalho e aí você ficou aí por causa do visto de trabalho? O Vitor também, né? E foi como vocês conseguiram ficar ou não?

Luiza: Foi meio que um dilema assim no início, porque a nossa ideia era ficar um ano e voltar. Só que para voltar, a gente também não tinha muita perspectiva de trabalho e aí foi uma coisa bem, uma decisão racional, profissional assim. Eu tinha essa oportunidade de ter o visto por essa empresa, né? Eles inclusive se registraram como provedores de visto, não sei como falar isso.

Alexia: Sim, sim.

Luiza: Para me dar o visto, então na verdade eu fiz o processo para eles, eu ajudei a registrar a empresa e tal, e fiz tudo, o que foi muito legal. E o Vitor, como meu marido, como meu dependente, podia trabalhar também. E ele também estava num processo seletivo para a empresa que ele trabalha hoje, que ele queria muito trabalhar. Se as pessoas escutarem o Carioca Connection do Vitor vão saber isso tudo sobre ele.

Alexia: Sim

Luiza: E aí, ele já tinha feito as entrevistas, estava só esperando a resposta, só que teve todo um drama de… porque visto é sempre um drama, né? Teve todo um drama de, tipo, ele não ia receber a proposta, não era garantido que ele ia receber a proposta, ele não ia receber a proposta a tempo do nosso visto vencer. Então a gente entrou com um processo do meu visto e ele como dependente, e aí eu fiquei vinculada à essa empresa por todo o tempo que eu estivesse aqui. Então, para eu trocar de emprego, eu precisaria de um novo visto e ele também. Então se eu perdesse meu emprego, eu perdia o meu visto e ele perdia o trabalho dele. Então é bem dramático assim. Só que aí, depois a empresa dele deu o visto direto pra ele, então cada um tinha o seu.

Alexia: Ah, que bom.

Luiza: E aí, agora, eu sou a dependente dele. A gente fez todo um malabarismo de vistos. E agora a gente está um pouco… Porque ele está feliz, ele está… Enfim, a empresa dele é legal e ele pensa em ficar lá mais tempo, então agora não é dramático. E eu já troquei de emprego duas vezes.

Alexia: Exato. E agora você finalmente está numa empresa que você está muito feliz, pelo visto.

Luiza: E agora eu estou num lugar que eu amo, que é uma empresa pequena e super legal, e que eu faço uma coisa que eu adoro fazer. E aí deu tudo certo. E é isso.

Alexia: Que bom.

Luiza: Eu acho que quando a gente se muda para um lugar diferente… Quando eu me mudei para o Rio, foi um processo muito parecido assim. Meu primeiro emprego não era um emprego que eu idealmente queria ter, mas foi o que eu consegui, foi muito bom pra mim também no início. E aí acabou que, depois de um tempo, eu consegui um emprego que eu realmente gostava. Eu acho que o início em qualquer lugar, qualquer mudança assim, mesmo que seja no mesmo país, eu não acho que a adaptação aqui pra mim, pelo menos, tenha sido tão mais difícil que a minha adaptação no Rio, por exemplo.

Alexia: É?

Luiza: Porque é um mundo completamente diferente. A única diferença, claro, é que fica mais perto da família, então qualquer coisa eu tô a duas horas, eu tô perto dos meus pais, sabe? Alguma coisa assim. Aqui são 12 horas e, agora com pandemia, eu nem posso ir, sabe? Essa é a parte mais difícil, eu acho, de estar tão longe.

Alexia: É engraçado você falar que a adaptação não é tão diferente do Rio. Eu imagino como é que foi essa mudança pro Rio, assim, o choque de cultura como é que foi, porque…

Luiza: O Rio não é um lugar fácil de fazer amigos, né?

Alexia: Engraçado, todo mundo fala isso e eu assim, “Não, a gente é.” Mas é porque também, eu te conheci por causa do Vitor, então obviamente já tinha ali uma ponte. O Foster conhece por causa de mim vocês todos, então já tem uma ponte. Eu acho que quem chega lá sem uma ponte, é difícil.

Luiza: É difícil. E fora também desse, fora do meio. Então assim, pra eu ter meu grupo de amigos que não era vinculado ao Vitor também foi difícil, sabe? Porque aonde que, como uma pessoa adulta, onde que tu conhece pessoas? Ou no trabalho, mas se você trabalha num lugar minúsculo ou trabalha sozinha como eu trabalhei. Então uma das minhas melhores amigas também se mudou pro Rio e a gente acabou abrindo um escritório juntas, então a gente ficava muito juntas. Mas pra gente conhecer mais gente era sempre difícil. E pra conhecer numa noitada pra fazer amigos, sabe? Tipo, aonde, na praia? É meio…

Alexia: Onde é que você vai flertar por uma amizade, né? Porque eu me sinto flertando hoje em dia atrás de uma amizade.

Luiza: Aqui hoje em dia é muito engraçado, porque tem pessoas que te conhecem e fica assim, “Eu gostei de ti, vamos ser amigos.” Parece uma coisa de criança, sabe? “Oi, quer vir na minha casa? Quer ser meu amigo? Eu gostei de ti, acho que a gente ia se dar bem.”

Alexia: Exato.

Luiza: E é muito engraçado, porque aqui todo mundo tem meio que essa dinâmica de que é difícil criar grupos, porque a maioria das pessoas não é daqui, né? De Londres, especificamente. Então geralmente as pessoas falam, “Ah sim, também pensei isso, também pensei que eu queria ser tua amiga. Vamos ser amigos.” Aí a gente decide e geralmente dá certo, assim.

Alexia: É muito engraçado isso, porque eu estava falando outro dia isso pro Foster, tipo, eu me sinto flertando, voltando para aquela época, sabe? Que a gente precisava conquistar as pessoas. Só que pra ser amigo, do tipo, “Vamos sentar e tomar um café,” sabe?

Luiza: O que será que essa pessoa gosta de fazer? O que eu posso me mostrar mais legal assim? O que eu posso fazer pra ele achar que eu sou…

Alexia: Comida…

Luiza: É.

Alexia: Que série você está assistindo, sabe?

Luiza: Ainda mais em época de pandemia que não tem muito o que possa fazer, difícil.

Alexia: Tinha que ter tipo um Tinder para amizade, eu não sei se existe.

Luiza: Como é que existe? Bumble?

Alexia: Bumble não é tipo o Tinder?

Luiza: Não, mas é de amizade também.

Alexia: Ah é?

Luiza: Eu tô falando nome errado? Eu não sei, porque eu não sou dessa época de aplicativos no geral. Mas eu acho que é sim, eu acho que as pessoas se conhecem e podem fazer amizade.

Alexia: Vou descobrir. Bom, o Foster veio pelo Tinder, então assim, tudo certo. Então Lu, o que eu acho muito interessante, porque assim, a sua visão é diferente da visão do Vitor, seu marido. Ele, por exemplo, ele disse que teve a maior dificuldade de se adaptar por causa do tempo. Porque, obviamente, um carioca indo praí e etc. Então você já estava meio que tipo, mais preparada pra isso?

Luiza: Sim. Acho que o mais difícil pra mim, acho que pra ele ainda mais, é porque, no inverno, os dias são muito curtos. O frio e o clima ruim não me incomoda, tipo, chover o tempo todo. Inclusive, o sul da Alemanha chove a primavera inteira, é desesperador, sabe? Tu não vê o sol. Porto Alegre, o inverno chove, é úmido que nem aqui, sabe? O clima também muda, tu não sabe, tu leva na bolsa um casaco, um bikini, sabe? Tipo, é uma loucura, mas no inverno aqui, como é muito muito norte, eu acho que a gente não se dá conta. Londres é mais ou menos como Canadá, em termos de latitude? Acho que sim. Latitude?

Alexia: Sim. Altitude, latitude.

Luiza: É muito perto do Polo Norte, digamos. Só que porque não é tão frio, a gente não se dá conta como é norte. Então o dia mais curto aqui fica noite às 3 e meia da tarde. E isso bagunça o sono da gente, bagunça o nosso humor. Isso é muito difícil, porque o sol nasce às 8 da manhã. Ou seja, geralmente, dependendo de onde você trabalha, você já está saindo pra trabalhar ou já saiu, né? Não sei. Ou, no mínimo, o sol já tá nascendo quando tu tá saindo. Você acordou no escuro, aí tu entra no escritório e aí quando tu sai do escritório é noite de novo. Ou seja, tu não tem oportunidade de ver o dia. E aqui, eles não tem cultura de almoçar, né? Eles tiram 15 minutos, comem um sanduíche na frente do computador, sabe? Nem param de trabalhar. Ou parar 15 minutos, tomam um chá e seguem, né? Porque eles saem às 5pm, né? A gente tira uma hora e sai às 6pm. Eu, enfim, todos os meus trabalhos aqui sempre foram muito flexíveis, não tem essa coisa de crachá, não tem essa coisa… Algumas empresas daqui tem, claro, que não são todas. Mas alguns lugares que eu trabalhei foram bem flexíveis, mas eu sempre pude dizer assim, “Desculpa, mas não é culturalmente… Na minha cultura não é aceito eu não tirar uma hora de almoço,” sabe?

Alexia: Não, até pela sua saúde, né? Convenhamos, pelo amor de Deus. Não faz o menor sentido.

Luiza: Porque a cultura deles aqui é assim, eles tomam um café da manhã grande, tipo, ovo, salsicha, eles comem bastante. Aí no almoço eles comem só um sanduichinho e de noite eles jantam pesado, que é o contrário da gente, né? A gente geralmente janta leve e tem um almoço grande, com cafezinho e com sobremesa, sabe?

Alexia: Sim, sim. E é café da manhã bom, você come bem no café da manhã, almoça bem e jantar você come uma coisa leve para dormir de barriga vazia, porque você não pode dormir de barriga cheia.

Luiza: É, não pode não.

Alexia: Se não, você passa mal.

Luiza: Ai, mas é. Quando eu começo a jantar pesado por aqui, porque a dinâmica acaba te levando pra isso às vezes, eu realmente acho que a gente não dorme bem. Eu acho o nosso approach pra comida assim com o trabalho é bem mais saudável.

Alexia: Aqui em Portugal o pessoal toma cafezinho antes de dormir, às 11 da noite. Eu assim, “Gente, desculpa, não tem como. Não tem como café antes de dormir.”

Luiza: Eu tomo café até duas da tarde, se não eu não durmo nunca mais. É.

Alexia: Isso que você falou da luz do sol é muito importante. Eu também falei com uma menina de Estocolmo, ela está morando em Estocolmo e ela vem… Ai meu Deus, eu posso estar falando errado, mas se eu não me engano ela vem do Piauí ou alguma parte ali do nordeste e do norte.

Luiza: Quente.

Alexia: É. E ela foi parar em Estocolmo, coitada. E assim, ela falou, “Uma da tarde já está escuro, você não tem mais nada." E aí, o que ela fez em casa foi colocar aquelas luzes fake, só que são “naturais,” pra fingir que é o sol nascendo e etc.

Luiza: A gente tem isso também. O meu despertador, no meu inverno, é uma lâmpada que vai simulando o nascer do sol, porque é, não dá. Eu senti muito, assim, porque eu já tenho insônia geralmente e com esse tempo maluco… E é a mesma coisa no verão, porque no auge do verão, fica escura às 10h30 da noite. Então…

Alexia: É, aqui também.

Luiza: Tu começa meio que perder… Às 11pm parece que são 7pm, então se tu não te policia e, sabe, te organiza para ter uma rotina mais certinha, quando vê é 1 da manhã e tu tá pensando em jantar, sabe? Porque a gente que está acostumado com um dia mais normal, a gente sente bastante, isso acho que é um problema.

Alexia: Eu amava o horário de verão lá no Rio que, às 7h30 da noite, você ainda conseguia ir à praia e era melhor, né? Você ia à praia, voltava para casa, jantava, assistia alguma coisa e ia dormir. Aí tiraram o nosso horário de verão e agora não tem mais.

Luiza: E isso é horrível pra gente também, né? Por exemplo, esse fim de ano eu consegui ir pro Brasil, só que eu tive que trabalhar de lá uma semana. Então ao invés de ter duas horas, eu tinha três horas de diferença pra cá, o que é horrível, porque eu tinha que acordar às 15 pras 6am para trabalhar.

Alexia: Ai não.

Luiza: É, porque eu tinha reunião às 9am daqui e era 6 da manhã do Brasil, sabe? Com o horário de verão seria às 7am, bem mais aceitável. Eu acho que tem que voltar o horário de verão.

Alexia: Sim, vamos ligar lá para os bolsominions da vida e falar, “Olha…”

Luiza: “Tá atrapalhando minha vida.”

Alexia: E Lu, eu tinha mais duas perguntas para te fazer, a primeira é, você considera Londres sua casa?

Luiza: Sim, eu considero. A Inglaterra, no geral, a minha casa. É até engraçado que eu sei o momento que eu senti isso, sabe? Que a gente já estava aqui há um ano e pouco, e eu fui para um congresso e eu sempre reclamava daqui bastante assim, sabe? “Tanta coisa que no Brasil é melhor…” E eu fui para um congresso em Viena e eu passei uns 4 dias lá. E eu odiei Viena. Eu lembro que eu ficava tão irritada com tudo, nada fazia sentido pra mim, sabe? Isso que eu bem ou mal entendo alemão e falo alemão, mas tipo, tudo fecha sábado de tarde e só abre na segunda, sabe? Eu cheguei lá num domingo, eu fiquei num Airbnb e quase morri de fome, porque não tinha nada pra comer. Tudo eu tinha que comprar ticket de trem ou de ônibus e.. sabe? Eu lembro quando eu cheguei, o meu vôo atrasou tipo, 3 horas para voltar, eu cheguei no aeroporto de Londres à 1 da manhã e estava tudo aberto. 1 da manhã no aeroporto tinha sanduichinho, sopinha. Eu lembro que eu senti uma coisa tipo, “Ai, graças à Deus eu tô em casa onde as coisas funcionam. Voltar pra casa de trem, eu vou dormir na minha caminha, amanhã meu dia vai ser ótimo." Sabe? Eu lembro de ficar caminhando, passando pelos parques que eu passo geralmente, pensando, “Ai, que saudade desse lugar que eu tava.” Tipo, eu precisei viajar, não gostar de outro lugar para pensar. “Cara, não é Europa genérica, minha casa é Londres,” sabe?

Alexia: Talvez se você tivesse, por exemplo, viajado para o Brasil você não teria tido esse estalo, porque você já está acostumada e teve que ir para um lugar que deu tudo errado que, assim, eu tenho certeza que Viena é legal de conhecer, mas deu tudo errado para você considerar casa, mas é interessante isso.

Luiza: É, e aí eu me dei conta de como eu me acostumei com muitas coisas aqui. E assim, com a minha rotina aqui, com a maneira que eu vou para o trabalho, os lugares que eu gosto de caminhar. E não sei, é uma cidade que me faz bem feliz assim. A gente também mora num lugar legal, a gente mora no centro, mas não num centro muito movimentado, sabe? A gente mora numa parte que é, enfim, tem um parque aqui na frente, não é barulhento. Então é, enfim, é uma vida boa, eu acho. Eu teria dificuldade de me adaptar de volta ao Rio agora.

Alexia: Essa seria minha segunda pergunta. Se você tivesse que voltar a adaptação pro Rio ou para Porto Alegre seria difícil?

Luiza: Eu acho que eu não consigo morar em Porto Alegre de jeito nenhum. É engraçado, porque eu estou há tanto tempo fora de lá e eu já não tinha vontade… Eu amo Porto Alegre, é minha casa, mas eu nunca amei morar lá, eu nunca tive, nunca senti o bairrismo que as pessoas de lá sentem geralmente. Apesar de ser uma cidade linda e tem muitas coisas boas, só que eu sempre senti que não era muito pra mim, sabe? Eu sempre senti que eu ia morar em outro lugar. E esse lugar sempre foi o Rio pra mim. Só que agora, quando eu volto pro Rio, assim, a maioria das minhas amigas, vocês também, ninguém mais mora lá, porque o Rio esvaziou muito desde que a gente saiu.

Alexia: Por que será?

Luiza: É. E a segurança também, né? Porque mesmo Londres não sendo a cidade mais segura… Se tu fala aqui que Londres é seguro, as pessoas riem de ti, sabe? Porque eles tem um problema sério de facada, assalto, coisa assim, mas é incomparável, sabe? Então acho que a questão da violência na rua, eu ia demorar bastante para me adaptar também, sabe? Eu tô acostumada a andar mexendo no celular, a andar com AirPods, sabe? Tipo, isso…

Alexia: É o que eu penso também.

Luiza: Apesar de eu sentir muita falta de muitas coisas, sabe? De caminhar na Lagoa, de ir pra praia, de sair com as pessoas e sentar e tomar um choppinho, sabe? Mas coisas que a gente faz nas férias visitando a família também. Mas, pra mim, seria traumático me mudar agora, eu acho, porque a gente está aqui há 4 anos. Eu estou aqui há 4 anos, o Vitor passou um ano em Oxford, ele está em Londres há 3 anos. Mas eu acho que agora que eu me sinto bem adaptada. E a gente tem um grupo bom de amigos que é legal, sabe? Que moram perto e a gente pode ligar no mesmo dia, “Tá fazendo o que? Vamos fazer alguma coisa. Vamos sair pra jantar. Vamos conversar, sei lá.”

Alexia: Sim, sim.

Luiza: Então eu sinto que agora, esse ano, que a gente realmente se adaptou aqui. E é engraçado que, na pandemia, o primeiro lockdown aqui… Porque a gente teve um lockdown sério de polícia te mandar de volta pra casa no início. Ano passado teve uma sorte estranha que o verão começou em março e isso nunca acontece. Tipo, foi um ano muito quente ano passado.

Alexia: Eu lembro de você falando que estava muito quente, eu lembro disso.

Luiza: Muito quente. Meu aniversário é em abril e eu saí de biquíni por baixo da roupa, porque eu fui para um parque tentar me esconder da polícia e pegar um solzinho. E foi uma época que…

Alexia: Deu?

Luiza: Mais ou menos. Deu, eu passei a tarde lá meio que migrando de cantinho pra cantinho quando eles gritavam comigo. Mas eu comprei uma bicicleta e eu andei por Londres toda de bicicleta. E geralmente aqui não é bom pra andar de bicicleta, porque o trânsito é meio complicado, não tem muita ciclovia. Eles melhoraram bastante durante a pandemia mas, antes, eu tinha medo de andar, porque não era muito seguro.

Alexia: Uhun.

Luiza: Como estava tudo vazio, até o ônibus restrito, não podia… Fugiu meu português. Não podia sair de carro também, então tava muito bom para andar de bicicleta. E tu podia sair pra fazer exercício, então se tu quisesse sair pra andar pela cidade, podia. E eu conheci várias partes de Londres que eu não conhecia antes. Então acho que, quando a gente conhece bem o lugar que a gente mora, a gente sempre se sente mais pertencendo, né? Não sei, então…

Alexia: Com certeza.

Luiza: No fim, esse foi o lado bom... Não o lado bom, porque não teve o lado bom da pandemia. Foi uma coisa que eu consegui tirar de boa dessa situação horrível.

Alexia: É, eu acho que essa questão do pertencimento é o que eu ainda estou atrás aqui, porque eu cheguei aqui em 2019, 2020 teve pandemia e nós ainda estamos nesse meio. Então, por exemplo, vocês finalmente se adaptaram em três anos, eu acho que comigo vai ser um pouquinho mais por causa de tudo que aconteceu. Mas assim, eu já pertenço aqui à rua. Todo mundo já me conhece aqui na rua, o pessoal do restaurante, o pessoal do supermercado. Não sabem meu nome, não fazem ideia de quem eu sou, mas assim, “Olá, tudo bem?” Já existe isso. Então aos pouquinhos a gente vai indo. Agora, para terminar Lu, eu perguntei isso para o Vitor também e quero ver se a resposta vai ser igual ou não. Um lugar que você quer indicar para as pessoas visitarem no Brasil, que é assim, por exemplo, tirando os clichês, sabe? Rio de Janeiro, São Paulo, Floripa, porque já virou também uma cidade que muita gente vai, Salvador. Um lugar que seja seu, que você ama, que você gostaria que todos os internacionais, os gringos visitassem, você tem?

Luiza: Ai eu tenho porque, na verdade, foi um lugar que eu fui pela primeira vez ano passado, mas eu não sei se eu quero que todo mundo vá pra lá. Foi Ilha Grande.

Alexia: Ilha Grande, sim. Olha, já é a terceira pessoa que fala aqui.

Luiza: Nossa, é maravilhoso, eu amei. E viu, quero ir para o Brasil esse ano para ir pra lá. Eu quero ficar mais tempo lá, eu realmente gostei muito assim. Mas aproveitando que as pessoas não conhecem o sul, eu diria que tem um lugar chamado Maquiné, no Rio Grande do Sul, para quem gosta de cachoeira, tem umas cachoeiras muito lindas e é pertinho de Porto Alegre, é umas duas horas de carro de Porto Alegre. É também indo pro litoral norte do Rio Grande do Sul e é maravilhoso assim. É Mata Atlântica e cachoeiras assim, é muito bonito. Então eu recomendo.

Alexia: Maquiné?

Luiza: Maquiné é o nome, é. E tem comida muito boa colonial lá também que, pra quem não conhece, comida colonial é um tipo de comida que a gente tem que é feito na colônia que é sempre uma coisa mais… E a colônia é tipo esses lugares do interior que tiveram mais imigração, né? Então geralmente tem colônia italiana e colônia alemã. Tem tipo, queijos específicos, pães, sei lá como é que chama…

Alexia: Artesanais, né?

Luiza: É muito artesanal e é muito gostoso. Não é refinado, mas é delicioso, sabe? Não é uma coisa chique. E é muito, é aquela coisa de casa de vó assim, sabe? Tipo, tu vai sentar pra tomar um café, vão servir o café para 50 pessoas e as pessoas vão ficar chateadas se tu não repetir quatro vezes. Então isso é o Rio Grande do Sul. E esse lugar… Tem um lugar inclusive chamado Maquiné, alguma coisa assim, não me lembro mais, mas é uma coisa que tu para na estrada assim e compra bananada, mariola, sabe? Essas coisas assim, é muito gostoso.

Alexia: Pera aí, o que é mariola mesmo pra você?

Luiza: É bananada. É um tipo específico de bananada, que ela é fininha e tem um açúcar em volta assim, ela é mais durinha.

Alexia: Eu amo.

Luiza: É muito gostoso.

Alexia: Eu amo. Eu amo qualquer coisa, doce de banana é comigo mesmo. Me faça doce de banana que eu tô feliz.

Luiza: É muito bom. E tem outras coisas, tudo lá é gostoso, é muito bom. Se as pessoas querem sair de tipo, nordeste, sudeste, eu diria que o interior, serra do Rio Grande do Sul, que não é só Gramado e Vale dos Vinhedos, a parte de natureza em si, os cânions, a serra é muito bonito. E eu recomendaria aos gringos a irem lá.

Alexia: É engraçado, né? Porque Canelas e Gramado, todo mundo tá indo pra lá, todo mundo.

Luiza: É, mas é muito pra turista mesmo, né? Especialmente Gramado.

Alexia: É uma hype muito grande, né?

Luiza: A gente também vai, mas é quase artificial, sabe? Não é assim, as outras cidades não são assim. Tem muitas outras coisas ali, outras cidades em volta que tu come tão bem quanto por 1/5  do preço, sabe? Tu vai conhecer as pessoas que moram ali, as pessoas que produzem aquela comida, porque ali tem muito pequeno produtor fazendo coisas deliciosas assim, sabe? É realmente uma região que vale a pena explorar muito além de Gramado. Se eu fosse levar alguém pra lá, eu jamais levaria para Gramado, sabe?

Alexia: Que bom, porque eu nunca fui pro sul. Eu preciso visitar o sul.

Luiza: Ah, viu? A gente te leva. Serra de Santa Catarina, Serra do Rio Grande do Sul.

Alexia: Então pronto. Eu cheguei até o Uruguai, mas eu não atravessei, eu não fiz aquela travessia, mas eu não cheguei a falar portunhol, só fiquei no espanhol mesmo, então eu fiz um pouco mais… Ótimo Lu, obrigada por você ter vindo aqui, espero que você tenha gostado.

Luiza: Sim, eu adorei.

Alexia: Finalmente eu posso falar “te vejo em breve pessoalmente." To muito feliz.

Luiza: Que loucura. Sim, eu também.

Alexia: Porque faz o quê? Dois, três anos? Uma coisa assim?

Luiza: O Vitor falou que a gente não se vê desde o nosso casamento.

Alexia: Exato.

Luiza: E eu falei, “Não, óbvio que não.” E aí depois eu fui pensar e sim.

Alexia: Uhun. Ele assim, “Adorei seu cabelinho assim.” “Eu já tenho isso a tanto tempo, Vitor.” É tipo isso.

Luiza: É tipo isso. Tudo bem que a gente se sente próxima, porque eu não diria que tem 3 anos que a gente não se vê.

Alexia: Graças a Deus. Obrigada Instagram, Facebook, WhatsApp e tudo isso. Eu não tenho zero de reclamações em relação a isso.

Luiza: Não, também. Nossa. Tá bom.

Alexia: Obrigada.

Luiza: Beijo.