Listen on:
Foster: Olá, olá Alexia.
Alexia: Oi, Foster.
Foster: Tudo bem?
Alexia: Tudo. E você?
Foster: Então, me fala, Alexia. A gente está aqui, no Aléntejo, em Portugal.
Alexia: Sim. Ou como eles falam, Shim.
Foster: Shim... Não, não eles não falam assim não.
Alexia: Aqui eles falam.
Foster: Bom, pode descrever pra mim a paisagem que a gente tem agora?
Alexia: Bom, estamos olhando para oliveiras, para…
Foster: Oliveiras são o quê? Porque para mim, oliveiras é um sobrenome.
Alexia: Não. Oliveiras é árvore da azeitona. Onde dão olivas. Olive oil, olivas, azeitonas.
Foster: Olive tree.
Alexia: Yeah.
Foster: Então a gente tem oliveira, mais azeite e azeitona.
Alexia: Azeitona, exatamente.
Foster: Só isso?
Alexia: Sim.
Foster: Que em Portugal é muito importante.
Alexia: É o mais importante de todos, depois do vinho.
Foster: Pois…
Alexia: Estamos vendo o Alqueva. Você quer explicar o que é o Alqueva?
Foster: O alqueva é o lago que aqui no Portugal... (vou explicar isso em inglês, tá?)
Alexia: Mais grande, sim.
Alexia: Sim, então é o maior lago feito por homens na Europa e…
Foster: Eu diria que é o lago mais grande…
Alexia: Não, você não consegue imitar o sotaque, amor, desculpa.
Foster: Eu estou chegando lá, amor. Dá um tempinho, por favor.
Alexia: E com umas montanhas, e árvores e o pastor, que é o shepard, né.
Foster: Sim.
Alexia: Está chegando com as ovelhas à beira do lago e é uma sensação de paz muito grande.
Foster: Dá uma sensação de paz e infelizmente eu acho que eu vou destrurir essa sensação de paz, porque a gente vai falar sobre uma palavra que sempre... Na verdade, nunca entendi direito a palavra saudade. Que imagino, hoje em dia, a Alexia está sentindo saudade pro Brasil.
Alexia: Do Brasil.
Foster: Do Brasil... O que que eu falei?
Alexia: Pro.
Foster: Ah, do. Não é?
Alexia: Sim, sim. Não tanto. Tô sentindo saudade dos meus amigos, do meu pai.
Foster: Amor, o nome do podcast é Carioca Connection.
Alexia: Mas eu tô adorando minha estadia em Portugal.
Foster: A senhora ser portuguesa também, então tem todo o direita pra fazer isso.
Alexia: Ela tem todo o direito de fazer isso.
Foster: Eu sabia. Nossa.
Alexia: De fazer isso.
Foster: Cê acha que foi uma ideia ruim, depois de beber vinho?
Alexia: Você ainda nem tomou dois goles então isso é uma desculpa mesmo. Isso é você errando normalmente.
Foster: Tá, mas me fala, Alexia. O que que é saudade pra você. E só pra explicar pra mim, saudade. Sei lá. Uma coisa sobre linguagem. Em cada língua tem uma palavra que não é ‘traduzível’, né? Que só existe no português do Brasil. Saudade, mas…
Alexia: Não, em português.
Foster: É, em português, mas estou falando em cada língua tem essas palavras que ah, só existem nessa língua. Eu sempre fico um pouco ‘suspeito’ sobre essas palavras, né?
Alexia: Por quê? Porque no inglês não existe?
Foster: Bom, por exemplo, saudade eu acho que, ‘nostalgia’.
Alexia: Nostalgia.
Foster: Nostalgia seria um sinônimo que fica quase igual.
Alexia: Não, então.
Foster: Então me explica. Pra você, o que que é a saudade.
Alexia: Ao meu ver, existem três definições. Uma é você estar nostálgico sobre algo. Ou seja, você tá lembrando algum tempo da infância que você brincava com os amigos, em certo lugar e você fica com aquele sentimento de nostalgia. Que, ‘nossa, que tempo bom’. Mas não necessariamente você está sentindo falta. Essa é a segunda definição. Sentir falta de algo é algo que você gostaria muito que voltasse a acontecer, certo? Então assim, ‘Estou sentindo falta, sei lá, da Bruna, da minha amiga.’ Eu tô sentindo falta dela. Mas tudo bem.
Estou sentindo falta da Bruna. I’m missing Bruna.
Nossa, que tempo bom! Wow, what good times!
Foster: Eu também, mas... Peraí, peraí.
Alexia: Peraí, calma, deixa eu acabar de explicar.
Foster: Tá bom, tá bom.
Alexia: Eu tô sentindo falta dela, mas ela tá lá. Eu tô sentindo falta, mas tudo bem, a gente se fala todos os dias. Saudade é algo muito mais intenso e muito mais forte. Hoje em dia, a gente usa saudade como sentir falta. Por isso que a definição perdeu um pouco o seu sentido, porque saudade é aquilo que mais dói dentro de você, que você realmente não conseguiria viver sem. Então, um exemplo. Quando você está nos Estados Unidos e eu tô no Brasil, eu sinto muita saudade.
Foster: De mim?
Alexia: Sim. Não é só sentir falta. Não é só se sentir nostálgica. Então é um sentimento muito mais profundo, que não há definição.
Foster: Então. Deixa eu ver. Então. Pra você a nostalgica.
Alexia: A nostalgia.
Foster: A nostalgia. Nostalgia. Nossa, essa palavra vou sofrer muito. Nostalgia pra você é um sentimento positivo? Uma memória boa. E tipo, nossa, aquele momento com a Bruna foi tão legal e estou sentindo…
Alexia: Mas vai ser ruim ou bom.
Foster: É, mas saudade tem mais a ver com, é uma coisa que realmente dói.
Alexia: Não. Não é que doa. É algo que você sente tanta, tanta falta, tão imensamente, que te dá saudade. Então é algo muito mais profundo, é muito mais imenso e muito mais eterno. Como por exemplo, eu sinto muita saudade da minha mãe. Não é sentir falta. Eu sinto saudade dela. É diferente.
Foster: É. Eu entendo. No caso da sua mãe, é uma coisa diferente. É. Talvez a definição da saudade ficou um pouco mais fraca hoje em dia.
Alexia: Sim, porque é banalizada.
Foster: Mas, por exemplo, eu estava pesquisando um pouco e uma definição que eu goste bastante, que era em inglês é ‘the best way to describe saudade is the presence of the absence’.
Alexia: Sim.
Foster: Então é ‘a presentcia da ausêntcia.’
Alexia: É a presença da ausência. Exatamente. Então é aquilo que você sabe que, normalmente, você nunca mais vai ter. Então, é, por exemplo, a gente conheceu uma praia aqui perto. Daqui um, dois ou três anos, a gente vai falar ‘nossa que saudade daquela praia’. Que delícia que era você via a Espanha de um lado e Portugal do outro. Mas na verdade, o que a gente deveria usar é ‘nossa, tô sentindo falta daquela praia’ e não saudade. Entende? Só que saudade é uma coisa tão nossa e a gente entende tão bem, como falar e entende tão bem o sentimento, que é saudade. Então eu sinto saudade sua, eu sinto saudade da praia, eu sinto saudade.**
Só que saudade é uma coisa tão nossa e a gente entende tão bem. But ‘saudade’ is something so personal to us that we understand so well.
Foster: Então somente, se eu entendi direito, que saudade pra você é uma coisa que não vai voltar. Por exemplo, na praia a gente vai na semana que vem. A gente tá sentindo falta. I miss the beach. I wanna go to the beach.
Alexia: Exatamente.
Foster: But let’s say, the beach there is never the option that I would go there again. So saudade is something that you had at one point in your life and it’s never there again?
Alexia: Mais ou menos isso.
Foster: Isso pra mim é... é alguma coisa tão profunda.
Alexia: Mas é, mas é exatamente isso.
Foster: Hoje em dia eu acho que o brasileiro não usa assim.**
Alexia: Não é só o brasileiro. A língua portuguesa.
Foster: A língua portuguesa não usa assim.
Alexia: Mas é o que eu tô falando. É banalizado. Por isso que eu comecei falando que existem três definições: nostalgia, sentir falta e saudade.
Foster: Então é esse um problema que eu tenho. Que eu tenho muitos amigos que ‘ah, que saudade! E aí tudo bom?’ É tipo, ah, te vi anteontem.
Alexia: É. Ao mesmo tempo eu falo pras minhas amigas. ‘Eu estou com muita saudade de vocês.’ Porque é normal, que é um sentimento mais do que sentir falta. Então quando você fala que tem saudade de alguma coisa, é algo muito mais grandioso do que simplesmente sentir falta. Por isso que não há definição em outras línguas, porque é uma coisa tão nossa. E tão importante e tão incrível da nossa língua, que ninguém mais pode ter.
grandioso - grandiose
Foster: É, isso eu acho uma coisa meio egoísta da língua portuguesa porque...
Alexia: I’m sorry.
Foster: Não, não é somente porque do sentido que você tava falando agora. I missed you, Bruna. But you could also say ‘Bruna, I miss you so much. I thought I’d never see you again’ e isso realmente é saudade, é o saudade puro que você tá falando. Saudade verdadeiro, mas é banalizado…
Alexia: Banalizado.
Foster: Banalizado como você falou e então eu acho que o sentido comum, hoje em dia, tem mais a ver com boas memórias, ou o sentido de sentir falta.
Alexia: Sim.
Foster: Mas o sentido que você está dizendo é uma coisa mais profunda, mais sei lá...
Alexia: Sim. É...O Vinícius de Moraes que a gente já falou sobre ele, ele gostava muito de escrever e cantar e falar sobre saudade.
Que era um dos sentimentos que ele mais conhecia, porque, como eu já falei em outro episódio sobre ele, ele era apaixonado por mulheres, né, então ele vivia, fazia tudo por mulheres e tem uma música que eu acho linda demais, que é Onde Anda Você, que a primeira estrofe é perfeita pra definição de saudade que eu tenho, que eu acabei de explicar, então é:
‘E por falar em saudade, onde anda você? Onde anda os seus olhos que a gente não vê? Onde anda esse corpo que me deixa um morto, de tanto prazer?”
Ou seja, ele nunca mais vai ver essa mulher que ele está escrevendo nessa música. Então é exatamente isso.
Foster: Eu entendi um pouco mais as nuances dessa palavra e talvez eu vou ficar um pouco menos rígido com…
Alexia: Se você souber usar da forma correta…
Foster: Eu sei.
Alexia: Aparentemente não sabia.
Foster: Eu sei da forma que o brasileiro usa no dia a dia.
Alexia: Sim, mas tudo bem também usar no dia a dia. Contanto que você saiba exatamente aquilo que você quer dizer.
Foster: Enfim, muita saudade do seu pai, do meu pai, das nossas famílias e das todas as coisas que a gente sacrificou pra ficar aqui com essa paisagem linda.
Alexia: Aham, exatamente. bom, então a gente fala mais no próximo episódio.
Foster: Tá bom, saudades.
Alexia: Tchau!
E por falar em saudade Onde anda você Onde anda seus olhos Que a gente não vê Onde anda esse corpo Que me deixou morto de tanto prazer E por falar em beleza Onde anda a canção Que se ouvia da noite Dos bares de então Onde a gente ficava Onde a gente se amava Em total solidão