Transcript
Alexia: Oi, oi, pessoal, e bem-vindos a mais um episódio do Carioca Connection na Bélgica! Meu nome é Alexia e eu estou aqui com Marco Antônio.
Marco Antônio: Eu.
Alexia: Sim, é você, pai. Tudo bem?
Marco Antônio: Tudo bem, filha.
Alexia: Bom, hoje vamos falar sobre o nosso segundo dia de viagem pelo país da Bélgica, que...
Marco Antônio: Começou às sete da manhã.
Alexia: Começou às sete da manhã com o meu despertador e eu acordando: "Pai, bom dia!" Nós dividimos o quarto e dividimos muito bem.
Marco Antônio: Muito.
Alexia: E descemos para o café da manhã do hotel.
Marco Antônio: Maravilhoso.
Alexia: Conta um pouco, pai.
Marco Antônio: Café da manhã tinha tudo que se pode imaginar: gostoso, bem servido. Eu, tendo diabetes, não posso comer açúcar nem nada, mas eu me dei o direito de comer um croissant, que é talvez o melhor que eu já comi. Uma beleza. Alexia fez a festa.
Alexia: Bom, nós brasileiros, nós temos... como é que se diz... o orgulho em dizer que os cafés da manhã dos hotéis brasileiros são muito bons, não é verdade? Por todo o Brasil. Seja uma pousadazinha ou um hotel cinco estrelas, o café da manhã vai ser gostoso. E me impressionou muito o café da manhã nesse hotel especificamente ser tão bom, porque eu não estava esperando ser. Tinha tudo, todos os tipos de geleia. Tinha para fazer waffle — waffle, para quem não sabe, que brasileiro chama de waffle. Eu fiz. Tinha pão de chocolate, tinha croissant, tinha todos os tipos de pães. Tinha também comida mais pesada, digamos assim. Tinha... ah, aquilo que eu falei: "Ah, o Foster ia amar isso, porque isso é muito da comida americana." Peraí, deixa eu ver se eu lembro. Hash browns — que eu não sei como é que fala isso em português.
Marco Antônio: Eu também não.
Alexia: Que é como se fosse um tipo de batata, mas é uma batata frita, mas não é uma batata frita. Enfim, tinha hash browns, tinha ovinho mexido, tinha todos os tipos de cafés, todos os tipos de chás. Muito gostoso, né, pai?
Marco Antônio: Muito gostoso. O café da manhã deixou saudades.
Alexia: Bom, aí saímos do hotel prontíssimos para ir para Bruges. Na Bélgica, eu aprendi que a gente nunca sabe se vai chover ou não. E como a gente estava indo mais para o norte, né, porque Bruges fica a cinco quilômetros do Mar do Norte, ou seja, é muito lá para cima e muito mais frio também para nós.
Marco Antônio: Sim.
Alexia: Fomos com os nossos casacos, cachecóis, guarda-chuva e prontos para explorar. De novo, chegamos na Bruxelas Central, que é a estação de trem. Fomos na maquininha, compramos para Bruges e de novo a gente não sabia para onde a gente ia nem nada, até que a gente perguntou para alguém, não foi, pai?
Marco Antônio: Perguntamos para um rapaz.
Alexia: É, para um rapaz. Descemos as escadas, aí ficamos esperando o trem que ia em direção a Ostend.
Marco Antônio: Que era a parte final, a estação final.
Alexia: Que o nosso querido amigo Joaquim nasceu e morou lá por muito tempo. Então tinha algumas paradas e uma dessas paradas era Bruges. O mais engraçado disso tudo é que nós estávamos na espera do trem. Daqui a pouco eu olho assim para frente e vejo uma mulher segurando o celular — ela estava com o Google aberto em português sobre Bruges. Aí eu falei assim: "Bom, deixa eu confirmar se a gente está no lugar certo, né?" Aí eu virei para ela e falei: "Oi, você fala português?" Ela: "Sim!" Era uma brasileira.
Marco Antônio: Sim.
Alexia: Aí juntou um grupinho de brasileiros, né, pai? Três famílias diferentes, incluindo nós, todo mundo indo para Bruges. Era uma quinta-feira e o trem atrasado, aquela coisa toda e tal. A gente ficou conversando e estava muito interessante falar, porque um casal estava fazendo uma viagem que começou na Escócia e ia parar em Portugal. Então eles fizeram Escócia, Paris, Bruxelas — Bélgica — Amsterdã, iam para Luxemburgo e depois vinham para Portugal, e de Portugal voltavam para o Brasil.
Alexia: E a outra família estava mostrando a parte para o filho, que era um filho mais novo — tipo dezoito anos, uma coisa assim — que o filho tem dupla nacionalidade de Luxemburgo, e eles iam para Luxemburgo para mostrar para o filho, para ver se o filho gostaria de se mudar para lá.
Marco Antônio: E o filho falou que não. Não, não, não.
Alexia: E eles eram do Sul do país, né? Então o Sul do país tem muita gente com dupla cidadania dos países nórdicos, então fazia sentido ele ter dupla cidadania de Luxemburgo.
Marco Antônio: Sim, exatamente. Mas o garoto fazia assim com a cabeça: "Não, não." A mãe desesperada.
Alexia: É. Chegamos em Bruges e andamos até o centro — da estação de trem para o centro de Bruges. Super simples, né, pai? Dez minutos andando.
Marco Antônio: É, mas a gente andou sem destino, né? A gente achou meio por acaso o centro.
Alexia: Sim. A gente foi, a gente seguiu o fluxo.
Marco Antônio: Sim, mas aí tem o seguinte: as ruas de Bruges — Bruges é uma cidade medieval, não é congelada no tempo, tipo ruínas, não. É uma cidade que se vive. Aquelas casas que você vê que têm quatrocentos anos, tem gente que mora lá. É uma joia, é inacreditável a beleza. E a gente andando naquelas ruas dá uma emoção muito grande.
Alexia: Sim, e a gente tinha alguns lugares que a gente queria visitar, mas a gente queria mais caminhar e ver a cidade do que: "Vamos ver isso, vamos ver aquilo, vamos não sei o quê." Então a gente deixou o dia fluir, né? Então a gente, ao invés de pegar e seguir o fluxo das pessoas de como é que chegava no centro, a gente foi pela parte de fora, digamos assim, né?
Marco Antônio: Certo.
Alexia: E vimos aquelas portinhas bem baixas.
Marco Antônio: A portinha bem baixa das casas tem um metro e vinte e cinco. E o Google — o Google não, o ChatGPT.
Alexia: Seu melhor amigo.
Marco Antônio: Meu melhor amigo me disse o seguinte: que as casas eram assim porque o imposto era cobrado pela fachada. Então eles faziam uma fachada pequenininha e a casa se estendia para trás à vontade. É muito engraçado isso.
Alexia: Muito engraçado mesmo. E uma coisa que eu gostaria de falar antes da gente continuar é que é muito na cara a divisão da Bélgica francesa e neerlandesa para a Bélgica flamenga.
Marco Antônio: Total.
Alexia: Dentro do trem, quando eles chamam — na Bélgica francesa, digamos assim, ou seja, em Bruxelas — eles estavam anunciando tudo em francês e também em holandês. Quando a gente passou para a Bélgica flamenga, era tudo em flamengo. Não tinha mais o francês. Não é verdade?
Marco Antônio: É. A divisão linguística da Bélgica, ela é brutal.
Alexia: E cultural.
Marco Antônio: E cultural, claro. Mas é brutal. É assim. São dois países que coexistem, mas diferentes. E os belgas, franceses e do norte, de Bruges, de Flandres, eles aceitam falar em inglês tranquilamente.
Alexia: Peraí, a gente está generalizando agora muita coisa, né? Óbvio, isso é uma generalização muito grande, porque óbvio que existem famílias da parte flamenga que também têm gente da parte francesa e eles falam em francês ou em flamengo entre si, mas a gente está generalizando a situação.
Marco Antônio: Claro, claro. Mas a divisão é total. As famílias flamengas colocam os filhos nas escolas que ensinam flamengo só, e as francesas colocam...
Alexia: Em inglês, né, também. O pessoal lá de cima fala flamengo e inglês.
Marco Antônio: Fala inglês tranquilamente porque ninguém fala a língua deles. Eles são poucos. A língua não é difundida, então ou falam inglês ou não se comunicam. E todo mundo é bastante educado no sentido de escola, de escolaridade. Todo mundo fala inglês.
Alexia: E ainda digo mais: o pessoal da parte flamenga que tem a fronteira com a Alemanha também aprende alemão, porque está tão perto um do outro que eles acabam aprendendo alemão e vice-versa.
Marco Antônio: Sim, pouca gente sabe, mas a Bélgica tem três línguas oficiais: o francês, o...
Alexia: Neerlandês.
Marco Antônio: Neerlandês e o alemão, que é uma pequena partezinha da Bélgica que fala. Tanto que a princesa, que será rainha, ela fala esses três idiomas e mais o inglês.
Alexia: É claro.
Marco Antônio: Fiquei sabendo.
Alexia: Bom, Bruges, chegamos, caminhamos tranquilamente, sem pressa nenhuma, e chegamos no centrinho, né?
Marco Antônio: Sim.
Alexia: E a gente viu uma igreja aberta. E igreja, tanto para mim quanto para o meu pai, não é uma questão só de religião, né? A gente também vê igrejas como monumentos, como uma parte histórica daquela cidade. Então a gente gosta de entrar em igreja para ver. E a maior parte das igrejas da Bélgica foram feitas antes do Brasil ser descoberto pelos portugueses, né? Digamos assim. Então é tudo muito, muito, muito antigo. E a gente entrou na Igreja de São Cristóvão. Quando a gente entrou, tinha alguém tocando órgão.
Marco Antônio: Um órgão magnífico.
Alexia: E não era alguém colocando uma música na igreja. Era realmente alguém tocando o órgão, porque a pessoa errava. Dava para ver quando a pessoa errava. Então a gente foi... foi uma experiência linda estar naquela igreja, com aqueles vitrais magníficos. Era uma igreja...
Marco Antônio: Quadros magníficos.
Alexia: Linda, aberta, iluminada. Eu fiquei muito feliz de ter ido e nem estava no nosso roteiro. É aquilo, não estava no nosso roteiro passar por lá.
Marco Antônio: Sim, uma igreja linda, linda, toda em madeira entalhada. Uma coisa espetacular.
Alexia: É. Então essa foi a nossa primeira parada. Aí a gente continuou andando. E tem o que a gente percebeu da Bélgica, assim como aqui no Porto também: tem muitas cidades que têm uma rua só de lojas, né? Que é a Rua das Lojas. Então a gente passou pela Rua das Lojas e chegamos à Grand Place de Bruges — que, para quem assistiu o filme "In Bruges," vocês vão lembrar, é a Grand Place onde todo o filme acontece. E, gente, eu me senti dentro do filme mesmo. Foi incrível ver aquela torre.
Alexia: A gente sentou no lugar mais turístico possível, não foi, pai? Foi no meio da praça, no restaurante mais turístico, mas eu comi o waffle magnífico. E você pediu o quê, pai?
Marco Antônio: Eu não me lembro, mas eu lembro o seguinte: que Bruges foi, antes da Inglaterra, o centro comercial de tecidos. Eles importavam a lã da Inglaterra, tratavam a lã, tingiam a lã e os tecidos eram maravilhosos.
Alexia: E não só de tecido de lã, mas também renda.
Marco Antônio: Não, tudo, tudo. Mas o que eu quero dizer é o seguinte: Bruges era uma cidade muito rica e isso se espelha na Grand Place dela.
Alexia: Sim. E também, por ter acesso ao Mar do Norte, era um porto muito importante, né? Porque lembra que... eu já vou chegar lá, mas a gente aprendeu que existia um porto onde os navios, os barcos chegavam, etc. E ali era um centro comercial muito importante de coisas que eram trazidas do Mar do Norte.
Marco Antônio: Exatamente. Os portos da Bélgica, geralmente os mais importantes, são no interior da Bélgica. Os navios tinham acesso por rios e depois por canais.
Alexia: Sim, mas aí já não era navio, né? Porque as pontezinhas que são de 1100, sei lá quando é que foram feitas, em novecentos, você tinha que abaixar para passar por elas, né?
Marco Antônio: Não, sim, sim, estou dizendo. Mas tinham canais especiais, rios especiais, e o comércio vinha de todo lugar. Não era só... Era exportado também. Era um centro importantíssimo. Bruges e Gent, que é uma cidade vizinha, foram as cidades mais importantes da Europa naquela época, comercialmente.
Alexia: Napoleão se interessou muito por Bruges, não foi?
Marco Antônio: Napoleão entrou e, sem luta, sem nada, anexou a Bélgica e falou: "É minha," e tal. E assim vamos.
Alexia: Bom, e depois da gente ter almoçado ali na Grand Place, nós começamos a caminhar de novo. E aí entramos numa lojinha que era uma lojinha de Natal, lembra? Que Bruges é muito conhecida também hoje em dia por ter um mercado de Natal maravilhoso — é quando muita gente da Europa vai para lá, que o mercado de Natal de Bruges é incrível — e eu fiquei muito curiosa para ir. É a alta temporada deles, né? E essa lojinha é Natal o ano inteiro, então você consegue comprar ornamentos para a sua árvore, lembrancinhas...
Marco Antônio: Relógio cuco.
Alexia: É, os relógios cuco. Você pode fazer tudo que você quiser naquela loja. E eu comprei duas lembrancinhas de lá — uma para a nossa árvore e uma para a árvore dos pais do Foster, como lembrancinha, que eu gosto muito de fazer isso. E depois a gente continuou seguindo. E a gente queria chegar na Igreja de Nossa Senhora — eu fico falando errado o nome, mas era de Maria, uma coisa assim. Só que a gente errou o caminho, digamos assim. E aí chegamos em uma outra praça onde tinha a basílica que tem o sangue de Jesus.
Marco Antônio: Uma relíquia.
Alexia: Que é um... como é que se diz? É um negocinho redondo, né?
Marco Antônio: É um objeto que dentro está guardado o sangue de Jesus.
Alexia: Sim. O que você sentiu?
Marco Antônio: Eu senti uma emoção muito grande porque, historicamente, não importa. O que importa é o seguinte: é uma relíquia que é adorada há centenas de anos e estava ali à nossa frente. A gente pode passar apenas um pouquinho na frente. E tinha uma senhora vestida inteirinha de branco que ficava...
Alexia: Ela não era freira, não era nada nesse sentido.
Marco Antônio: Ela ficava adorando, literalmente adorando a relíquia. Eu passei, fiz um sinal da cruz, pedi por todos — fiquem tranquilos — e me impressionou muito.
Alexia: E o que a gente teve muita sorte é que, como a gente não foi no fim de semana, a fila para ver era muito pequenina. Porque dizem que durante o fim de semana a fila pode durar até duas horas para ver. Então a gente ficou no máximo três minutos na fila, passamos, vimos aquilo. A basílica em si não é nada.
Marco Antônio: É pequena, não é grandiosa, mas é muito histórica.
Alexia: É muita emoção ver aquilo, né? Saímos da basílica. Peraí, só um minuto. Para com esse pé, Marco Antônio. Eu só escuto o pé dele. Tic, tic, tic. Parou.
Alexia: Saímos da basílica, continuamos andando e aí entramos numa outra loja que foi onde a gente comprou as duas fronhas de travesseiro. Porque, como meu pai explicou, Bruges era o centro de tecidos, né? E são travesseiros maravilhosos, feitos à mão, bordados à mão. Eu falei: "Tem que levar isso para casa e vai ser uma lembrança para sempre dessa viagem."
Alexia: E aí, uma coisa que eu estava muito em dúvida se a gente fazia ou não era o passeio de barco.
Marco Antônio: Sim.
Alexia: Porque era muito turístico, mas ao mesmo tempo todo mundo fala que vale a pena, porque é como você realmente conhece a cidade.
Marco Antônio: Passeio de barco, diga-se, são pelos canais da cidade, que são lindos.
Alexia: Exato. E eu amei. A gente sentou ao lado da nossa capitã, que era o máximo. Ela falava cinco línguas. Então ela falava tudo em inglês, francês, espanhol, italiano.
Marco Antônio: Italiano. E falava duas ou três palavras em português.
Alexia: É. Algo assim. E, enfim, então ela explicava cada parte de Bruges. "Ah, aqui é o quartier, é o bairro mais nobre da cidade. Aqui era o porto onde existia a parte comercial mais importante de Bruges." E ela falava as coisas boas e as coisas ruins de Bruges hoje em dia — que os aluguéis estão muito altos. Por exemplo, ela é enfermeira e também trabalha como guia no barco para conseguir sustentar a família dela. É uma loucura você pensar nisso, né? Que ela morava em um lugar, teve que se mudar para outro, agora está cada vez mais fora da cidade porque os aluguéis estão muito altos, de tão importante que Bruges hoje em dia está se tornando, de tão cara que é.
Marco Antônio: Sim, o clima desse passeio é um barco passeando pelos canais, e as margens, casas muito bonitas, sempre no estilo holandês, belga, e com muitas árvores. Assim, um passeio delicioso, nada de moderno.
Alexia: Não, vale muito a pena. Eu gostei.
Marco Antônio: Vale muito a pena, eu gostei.
Alexia: Eu gostei bastante. E aí depois a gente saiu do barco e aí finalmente fomos para a Igreja de Nossa Senhora — que eu vou chamar assim, porque é de Maria, Maria alguma coisa — onde tem a escultura da Madonna de Michelangelo.
Marco Antônio: De Michelangelo. É a única escultura de Michelangelo fora da Itália.
Alexia: A única?
Marco Antônio: A única.
Alexia: Não tem nem no Louvre?
Marco Antônio: Não, claro que tem museu, mas estou dizendo, ele fez quando... encomendaram para ele e ele fez. Pelo menos o Google me explicou isso, que é o único.
Alexia: O Google?
Marco Antônio: Não, não, o ChatGPT — que é o meu melhor amigo — ele falou: "É a única escultura que ele se dedicou a fazer fora da Itália." Quer dizer, ele esculpiu aquela pedra lá. Isso que é importante.
Alexia: E, pai, qual...
Marco Antônio: Aliás, só um minuto, que é linda, né?
Alexia: É linda.
Marco Antônio: É linda.
Alexia: E conta um pouco sobre a história dela — que o Michelangelo fez para essa igreja especificamente. Napoleão foi e roubou.
Marco Antônio: Não, a Bélgica, a Holanda, tudo.
Alexia: Não, pai, Bélgica é uma coisa, Holanda é outra.
Marco Antônio: Bélgica, estou dizendo — na época, filha, era chamada Países Baixos. Era, mas enfim, o Napoleão... todo mundo que invadiu a Bélgica levava obras de arte e depois iam devolvendo uma a uma quando acabava a guerra. É uma loucura.
Alexia: Mas o Napoleão pegou.
Marco Antônio: Pegou.
Alexia: Aí deixou no Louvre por um tempo. Aí depois foi devolvida. Aí depois o Hitler pegou e escondeu onde?
Marco Antônio: Escondeu numa mina de sal para fugir dos bombardeios, ou sei lá o quê. E uma equipe americana especialista em arte foi lá, descobriu e devolveu para a Bélgica.
Alexia: E está lá desde então.
Marco Antônio: E está lá desde então, graças a Deus.
Alexia: Ninguém mais roubou a Madonna. Bom, e aí a gente depois sentou num cafezinho, né?
Marco Antônio: Sim.
Alexia: Para acabar o dia, comemos uma coisa muito gostosa. Você comeu uma quiche com uma sopa. Eu comi um sanduichinho.
Marco Antônio: Sim, eu comi uma quiche Lorraine, muito gostosa.
Alexia: A gente tomou um café, relaxamos antes de voltar para o trem — para pegar o trem, para tentar descobrir de novo qual linha que pegava para qual, onde ia, qual era o trem que pegava. Tudo confuso nessa situação Bélgica. Precisamos melhorar nesse ponto. E depois chegamos em Bruxelas de novo. Fomos deitar porque no outro dia começava às sete da manhã de novo, não é?
Marco Antônio: Eu não sentia as minhas pernas nesse dia. Eu não sentia as minhas pernas. Eu levei uma meia hora para voltar a mexer os dedinhos do pé e tudo, porque a gente andou doze quilômetros, mais ou menos. Doze mil passos, sei lá.
Alexia: Não, foram dez quilômetros nesse dia. Mas comparados...
Marco Antônio: Não, claro, comparados. Mas chega no fim do dia.
Alexia: Agora, se você pudesse resumir em uma frase para quem não conhece Bruges e quer conhecer, como é que você apresentaria a cidade?
Marco Antônio: Eu vou ser bem, bem sincero e bem curto. Imperdível. É uma experiência humana que você vai encontrar só lá.
Alexia: Pronto. Então é isso, gente. No próximo episódio — desculpa, eu ia falar "amanhã" — nós vamos falar sobre o nosso primeiro dia em Bruxelas mesmo, que a gente fez duas coisas muito legais. Eu não vou dar nenhum spoiler. Então, até o próximo episódio. Tchau!
Useful Vocabulary, expressions, etc… 📚
despertador — alarm clock
dividimos o quarto — we shared a room (dividir = to share/divide — used naturally for sharing a hotel room)
café da manhã — breakfast (the standard Brazilian term; in Portugal you'd say "pequeno-almoço")
tendo diabetes — given that he has diabetes (the gerund "tendo" here creates a causal clause — "since he has" / "as someone who has")
me dei o direito de — I allowed myself to / I gave myself permission to (a very natural way to describe indulging in something you normally wouldn't)
Alexia fez a festa — Alexia had a field day / went all out / really went for it (fazer a festa = to have a ball, go all in — often used affectionately when someone really enjoys food)
o orgulho em dizer — the pride in saying (o orgulho de/em + infinitive = pride in doing something)
pousadazinha — a little guesthouse / small inn (diminutive of "pousada" — the classic Brazilian small accommodation, like a bed and breakfast)
eu não estava esperando ser — I wasn't expecting it to be (a natural construction — "esperando ser" = expecting [it] to be)
geleia — jam / jelly
waffle — waffle (Brazilians pronounce it "WAH-fee" or "WAH-full" — the episode acknowledges the pronunciation difference playfully)
comida mais pesada — heartier / heavier food (pesada literally means heavy — used to describe more substantial, filling dishes)
o Foster ia amar isso — Foster would love this (ia + infinitive = the informal conversational conditional — more common in speech than "amaria")
ovinho mexido — scrambled eggs (with an affectionate diminutive — "little scrambled egg")
o café da manhã deixou saudades — we'll miss that breakfast / the breakfast left us longing for more (deixar saudades = to leave behind a longing — one of the most Brazilian expressions in the episode)
prontíssimos — completely ready / fully prepared (superlative of "pronto" using the -íssimo suffix)
a gente nunca sabe se vai chover ou não — you never know if it's going to rain or not (generic "a gente" = one / you / we)
é muito lá para cima — it's way up north (colloquial directional — "lá para cima" = up there, northward)
cachecóis — scarves
ia em direção a — was heading toward / going in the direction of
a estação final — the terminus / the final station (the end of the line)
daqui a pouco — in a little while / before long / shortly (temporal marker — "from here in a little bit")
eu virei para ela — I turned to her (virar para = to turn to/toward someone, to face them)
juntou um grupinho de brasileiros — a little group of Brazilians came together (juntar = to gather, to join up — often used for informal, spontaneous groupings)
aquela coisa toda e tal — the whole thing, and all that (filler phrase dismissing a familiar, expected situation without needing to spell it out)
dupla cidadania / dupla nacionalidade — dual citizenship / dual nationality
a gente seguiu o fluxo — we went with the flow / followed the current
a gente achou meio por acaso — we sort of stumbled on it by chance (meio = somewhat / kind of — softens the statement; por acaso = by chance)
não é congelada no tempo — it's not frozen in time (a vivid image — the city lives and breathes, it's not a ruin)
é uma cidade que se vive — it's a city that's lived in (reflexive passive — "se vive" = is lived, is inhabited — people actually make their lives there)
é uma joia — it's a gem / a jewel
dá uma emoção muito grande — it brings up a lot of emotion / it's very moving (dá + noun = it gives, it produces — "dá emoção" = it moves you)
a gente deixou o dia fluir — we let the day flow / unfold naturally
ao invés de — instead of (commonly used in Brazilian speech; "em vez de" is also correct and slightly more formal)
o imposto era cobrado pela fachada — the tax was charged based on the façade (cobrado = charged, levied; fachada = façade, the front face of the building)
a casa se estendia para trás à vontade — the house extended back as far as they pleased (à vontade = freely, at will — one of the most versatile expressions in Brazilian Portuguese)
é muito na cara — it's very obvious / right in your face (na cara = in the face — totally apparent, impossible to miss)
a divisão linguística — the linguistic divide
é brutal — it's stark / extreme / total (brutal in this context does not mean violent — it means intense, absolute, striking)
coexistem — they coexist
a língua não é difundida — the language isn't widely spoken / spread (difundida = diffused, spread — used for the reach of a language)
escolaridade — level of schooling / educational attainment (distinct from "escola" — escolaridade = the degree of education someone has received)
sem pressa nenhuma — without any rush at all (nenhuma intensifies — not just "without rush" but "with zero rush")
não é uma questão só de religião — it's not just a matter of religion (questão = issue, matter — a useful framing word)
roteiro — itinerary / planned route (also means script in film — here it means "our plan for the day")
não estava no nosso roteiro — it wasn't on our itinerary / we hadn't planned to go there
madeira entalhada — carved wood / woodwork (entalhar = to carve, to engrave in wood)
vitrais — stained glass windows
eu me senti dentro do filme mesmo — I genuinely felt like I was inside the movie (mesmo here = truly, really — adds emphasis and sincerity)
o lugar mais turístico possível — the most touristy place possible (possível at the end of a superlative is a very Brazilian intensifier)
o centro comercial de tecidos — the textile trading center
lã — wool
tingiam a lã — they dyed the wool (tingir = to dye — irregular verb, often overlooked by learners)
renda — lace (the fabric — completely different from renda as in income; context always makes clear which is meant)
isso se espelha na Grand Place — this is reflected in the Grand Place (espelhar = to mirror, to reflect)
pontezinhas — little bridges (diminutive of "pontes" — charming and precise for the low medieval bridges over the Bruges canals)
mercado de Natal — Christmas market
alta temporada — high season / peak season
Natal o ano inteiro — Christmas year-round
lembrancinhas — little souvenirs / mementos (diminutive of "lembrança" — warm and personal, not the generic tourist trinket connotation of "souvenir")
errou o caminho — took the wrong path / got lost along the way (errar o caminho = to go the wrong way)
relíquia — relic (a sacred object preserved for veneration)
adorada há centenas de anos — venerated for hundreds of years (há + time = for [duration] — "há centenas de anos" = for hundreds of years)
fiz um sinal da cruz — I made the sign of the cross
pedi por todos — I prayed for everyone / I asked [God] for everyone (pedir por = to pray for, to intercede for)
a fila pode durar até duas horas — the queue can last up to two hours (durar = to last; até = up to)
fronhas de travesseiro — pillow cases
bordados à mão — hand-embroidered
lembrança para sempre — a memory / keepsake that will last forever
passeio de barco — boat tour / canal boat ride
diga-se — it should be noted / let it be said (parenthetical aside — used to add clarification or a side comment)
pelos canais — along / through the canals
a nossa capitã — our captain (female form — capitã — marks that the boat captain was a woman)
que era o máximo — who was the best / who was absolutely amazing (o máximo = the greatest, the very best — very Brazilian superlative)
o bairro mais nobre — the most upscale / prestigious neighborhood (nobre = noble — used for elegant, high-status areas)
os aluguéis estão muito altos — rents are very high
para conseguir sustentar a família — to be able to support her family (conseguir + infinitive = to manage to, to be able to; sustentar = to sustain, support financially)
é uma loucura — it's crazy / unbelievable (very common Brazilian exclamation of disbelief or exasperation)
as margens — the banks / edges (of the canals — margens = margins, shores, banks)
um passeio delicioso — a wonderful / delightful outing (delicioso applied to an experience = thoroughly enjoyable, not just tasty)
nada de moderno — nothing modern at all (nada de + noun/adjective = none of, zero — emphatic negation)
vale a pena — it's worth it (one of the most essential Brazilian expressions — vale = it's worth; a pena = the effort/trouble)
a única escultura de Michelangelo fora da Itália — the only Michelangelo sculpture outside Italy
encomendaram para ele — they commissioned it from him (encomendar = to commission, to order something to be made)
os Países Baixos — the Low Countries (the historical name for the region that included modern Belgium, the Netherlands, and Luxembourg)
obras de arte — works of art
iam devolvendo uma a uma — they would return them one by one (imperfect + gerund construction showing a repeated, gradual action in the past)
numa mina de sal — in a salt mine
para fugir dos bombardeios — to escape the bombings
uma equipe americana especialista em arte — an American team of art specialists (the famous "Monuments Men" — see Cultural Notes)
graças a Deus — thank God (very common in Brazilian speech — used for genuine relief, not just as an expression)
imperdível — not to be missed / unmissable (im- + perder = unable to be lost/missed — a single word that says everything)
uma experiência humana — a human experience (Marco's understated but poetic way of describing something that touches you as a person, not just as a tourist)
não vou dar nenhum spoiler — I'm not going to give any spoilers
Cultural Notes & Context 📖
Belgium's Linguistic Divide
Belgium is split into two main linguistic communities: the French-speaking Wallonia in the south and the Dutch/Flemish-speaking Flanders in the north, with Brussels as a bilingual capital. The divide is so stark that, as Alexia and Marco Antônio notice, train announcements literally switch language once you cross the invisible line. The country officially recognizes three languages — French, Dutch (Neerlandês), and German (spoken by a small community near the German border). This linguistic tension runs deep politically: Belgium has gone record-breaking stretches without a federal government because the two communities cannot agree. Marco Antônio's summary — "são dois países que coexistem" — is not far off. Princess Elisabeth (now Queen, as of 2024) is indeed celebrated for speaking all three official languages plus English.
Bruges as Medieval Commercial Capital
At its peak in the 13th and 14th centuries, Bruges was one of the most important trading cities in all of Europe. It served as the northern terminus of Mediterranean trade routes, a major hub of the Hanseatic League, and the center of the European wool and textile trade. The city imported raw wool from England, processed and dyed it into fine cloth, and exported it across the continent. Bruges was also famous for its lace (renda) — an intricate handmade textile that remains one of the city's symbols today. The city's wealth is visible in its architecture, particularly in the Grand Place (Markt), where the guild houses reflect the economic power of the medieval merchant class.
Bruges and Its Canals
The city's name likely derives from the Old Norse "bryggia" (bridge/landing place), and its network of canals was its economic lifeline. Ships from the North Sea reached the city via a tidal inlet, allowing Bruges to function as an inland port. By the 15th century, the inlet silted up, trade shifted to Antwerp, and Bruges began a long decline — which is precisely why so much medieval architecture survived. The city was too poor to tear things down and rebuild. Its preservation is a historical accident turned tourist treasure.
The Basilica of the Holy Blood (Basílica do Santo Sangue)
Located in the Burg square in Bruges, the Basilica of the Holy Blood houses a relic said to contain a cloth soaked in the blood of Jesus Christ, brought from Jerusalem during the Second Crusade in 1150. The reliquary (what Alexia calls a "negocinho redondo") is a small crystal vial in a silver-gilt case. Every year, during the Procession of the Holy Blood, the reliquary is carried through the city streets. Weekends draw enormous crowds, which is why the three-minute wait Alexia and Marco Antônio experienced on a Thursday was extraordinary luck.
Michelangelo's Madonna of Bruges
The Church of Our Lady (Igreja de Nossa Senhora / Onze-Lieve-Vrouwekerk) in Bruges contains Michelangelo's Madonna and Child, completed around 1501-1502. It is widely considered the only Michelangelo sculpture to leave Italy during his lifetime — it was purchased by a wealthy Bruges merchant family (the Mouscrons) and installed in the church. Marco Antônio's account of its history is accurate: Napoleon had it taken to Paris in 1794, where it sat in the Louvre until it was returned after his defeat. During World War II, the German occupation looted it again, hiding it in an Austrian salt mine. It was recovered in 1945 by the Monuments, Fine Arts, and Archives Program — the team of Allied soldiers and scholars popularly known as the "Monuments Men" — and returned to Bruges, where it has remained ever since.
"In Bruges" (the film)
The 2008 British-Irish dark comedy "In Bruges," directed by Martin McDonagh and starring Colin Farrell and Brendan Gleeson, put the city on the map for a generation of international travelers. The film uses Bruges's medieval streets, canals, and the Markt square as its primary setting. The Belfry tower (torre) that Alexia mentions seeing from the Grand Place is one of the film's key locations. Alexia's sense of walking into the film is something many visitors report — the city looks almost exactly as it did on screen.
Bruges Christmas Market
The Bruges Christmas market (Kerstmarkt) is consistently ranked among the top Christmas markets in Europe. It transforms the Markt square and surrounding streets into an enormous outdoor event with traditional wooden stalls, ice skating, mulled wine, and local specialties. It runs through December and draws visitors from across Europe. The year-round Christmas shop Alexia and Marco Antônio visit is a common find in Bruges — catering to visitors who want a piece of the Christmas magic regardless of season.
Dual Citizenship in Southern Brazil
The discussion about the family from "o Sul" (Southern Brazil) with Luxembourgish citizenship reflects a real phenomenon. Southern Brazilian states — Rio Grande do Sul, Santa Catarina, and Paraná — received large waves of European immigration in the 19th and early 20th centuries, primarily from Germany, Italy, and smaller numbers from other countries. Several European nations (including Italy, Germany, and to a lesser extent Portugal) have citizenship-by-descent programs that allow the grandchildren or great-grandchildren of immigrants to reclaim citizenship. This makes dual citizenship relatively common in southern Brazil, and the families who hold it sometimes explore the possibility of relocating to their ancestral countries.
Grammar Highlights 🎯
1. Ia + infinitive (the informal conversational conditional)
In spoken Brazilian Portuguese, the imperfect of "ir" (ia) + infinitive replaces the formal conditional (would + verb) almost entirely. It's one of the clearest markers of how Brazilians actually speak versus how textbooks teach.
- O Foster ia amar isso — Foster would love this (not "amaria")
- Eles iam para Luxemburgo — they were going to go to / would go to Luxembourg
- Eu ia falar "amanhã" — I was about to say "tomorrow" / I would have said "tomorrow"
The formal conditional ("amaria," "iria," "faria") still exists and appears in writing, but in conversation, "ia + infinitive" is what you'll hear.
2. De tão... que (result clause — expressing consequence of degree)
A construction that says "so [adjective] that..." — describing a result that follows from an extreme degree of something. It appears twice in the same sentence in this episode, making it a great study case.
- De tão importante que Bruges hoje em dia está se tornando, de tão cara que é — Given how important Bruges is becoming, given how expensive it is (literally: "from so important that it is becoming, from so expensive that it is")
The pattern: de tão + adjective + que + clause = because of how [adjective] it is, because it's so [adjective].
3. Nada de + noun/adjective (emphatic negation — zero, none of)
A very common Brazilian construction for absolute negation — stronger than just "não tem" or "não é."
- Nada de moderno — nothing modern at all / zero modernity
- Sem pressa nenhuma — with absolutely no rush (nenhuma also acts as an emphatic negator)
Compare: "não tem nada moderno" (there's nothing modern) vs. "nada de moderno" (modern — completely absent). The second is sharper and more emphatic.
4. Há + time expression (duration up to the present)
A structure that appears twice in this episode. "Há" indicates how long something has been going on — it's the equivalent of "for [time]" in English when describing a state that continues to the present.
- Adorada há centenas de anos — venerated for hundreds of years
- Em sete anos (from Episode 1) — for seven years (Marco Antônio not having been in an airport)
Common learner error: using "faz" instead of "há" ("faz centenas de anos que é adorada" also works — it's a regional/stylistic variation — but "há" is more standard.)
5. Ao invés de vs. em vez de (instead of)
Both mean "instead of" and are used interchangeably in speech. "Em vez de" is considered more standard in formal writing; "ao invés de" is extremely common in casual Brazilian speech. Learners will hear both and should recognize them as synonyms in spoken contexts.
- Ao invés de pegar e seguir o fluxo das pessoas — instead of just going with the crowd
- Em vez de pegar e seguir o fluxo das pessoas — same meaning, equally correct
6. Superlatives with -íssimo and possível (intensification patterns)
Brazilian Portuguese uses two main patterns to express "extremely" or "the most possible":
The -íssimo suffix:
- Prontíssimos — completely ready / super ready
- Importantíssimo — extremely important
- Pequenininha — tiny tiny (double diminutive for extra emphasis)
The "o mais... possível" pattern:
- O lugar mais turístico possível — the most touristy place possible
- Bem, bem sincero — very, very honest (repetition as intensifier — also extremely common in Brazilian speech)
Repetition (bem bem, muito muito, linda linda) is a key Brazilian intensification strategy that textbooks rarely teach but native speakers use constantly.