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Alexia lê o artigo: Tu, você ou senhor? (Sotaque do Rio de Janeiro)

Tu, você ou senhor?

Por Lucy Pepper

Para quem tem o inglês como língua materna, a maior parte das línguas europeias têm duas rasteiras muito difíceis.

A primeira é o género das palavras. Muita da energia que gasto todos os dias é empregada a tentar lembrar-me dos géneros. Claro que há muitas palavras cujo género é óbvio e fácil de lembrar, e dá-me jeito que o adjectivo normalmente venha depois do nome — tenho assim tempo para me lembrar de que deve concordar com esse nome.

Dentro da minha cabeça, dou-me os parabéns cada vez que acerto com o género de palavras como dia, sistema, problema, planeta, mapa, que terminam em “a”, mas são masculinas.

Pergunto-me qual a razão por que alguém decidiu que as palavras deviam ter género, sem pensar que isso ia complicar a vida a estrangeiros como eu. Para quem cresceu a falar inglês, não faz sentido nenhum que uma mesa seja feminina e um prato masculino, mas continuo todos os dias a fingir que tudo o que sai da minha boca sai naturalmente, e que não tenho três máquinas dentro do meu crânio a funcionar para recordar os géneros.

Um outro obstáculo grande para nós, os anglófonos, é a segunda pessoa, ou seja o tu/ você/ o Senhor/ a Senhora. Desde que comecei a aprender francês e alemão na escola, as variedades de tu/etc. sempre me pareceram um mistério, a adicionar à lista de coisas de que precisava de me lembrar para além do vocabulário, da gramática e do género das palavras … Mas como nunca tive de viver na França ou na Alemanha, tu/vous e du/Sie nunca me causaram os paroxismos de ansiedade de tu/você/ o Senhor/a Senhora.

Não só tenho de adivinhar qual o sexo da pessoa (já todos passámos por isso … é homem ou mulher?), mas ainda tenho de decidir se a/o vou tratar como tu, você ou o Senhor/a Senhora.

Se houvesse uma regra clara, seria um pouco mais fácil. Se, por exemplo, a regra fosse que uma pessoa da mesma idade ou mais nova era tu, e uma pessoa obviamente mais velha era o Senhor/ a Senhora, não haveria problemas. Ou se a regra fosse que todos os familiares, amigos e colegas eram tu, e o resto, os que nunca vamos encontrar mais de uma vez na vida, era você, isso também faria mais sentido.

Mas, não. Em Portugal, as regras são demasiadas fluídas e temos de sofrer a indignidade e a ansiedade de decidir no momento como tratar a pessoa que vamos encontrar pela primeira vez. De facto, a coisa do tu/etc. acaba por ser muito divisionista.

Há uma subserviência terrível em tratar o patrão por você, enquanto ele a trata por tu. É perturbador quando, ao sermos apresentados a alguém, lhe aplicamos um diplomático “você”, apenas para depois ficarmos a ponderar, à medida que nos tornamos amigos, quando será a altura certa para lhe dizer “sou TU, por amor de deus!!!”. Conheço bons amigos que ainda se tratam uns aos outros por você depois de mais de 30 anos de amizade, e pergunto-me se é só porque nunca chegaram ter “a conversa”.

Nem sequer existem regras concretas para as famílias. Há famílias onde toda a gente é tu, sem falha. E há famílias para quem só a relação de sangue justifica o tu, e onde os genros e as noras são você para sempre.

Há famílias que insistem em que amigos próximos da família sejam tratados pelos filhos por você na forma de “tio/tia”, o que, para ouvidos britânicos, soa hilariante e muito “Abigail’s Party”. Existem famílias que querem que os filhos usem você para os pais, enquanto os pais tratam os filhos por tu, e há pais que tratam os seus filhos por você. Se existe uma forma de distanciar-se de um filho, além de recusar abraços, é essa. Como pode dar-se “você” a um bebé? Mas os casos mais esquisitos são os dos casais que se tratam por você um ao outro sem nem sequer serem brasileiros.

Pergunto-me se este jogo das diferenças de tratamento não é um sinal da divisão de classes e do snobismo de que todos, aqui em Portugal, nos acusam a nós, os Britânicos.

É muito simpático argumentar que se está apenas a mostrar respeito para com certa pessoa ao usar você ou o Senhor/a Senhora, mas acontece que esse respeito raramente se ouve no resto, nas palavras e no tom.

Tenho sorte. Posso jogar a minha carta de estrangeira estúpida quando não tenho pachorra para decidir que forma de tratamento usar, e nessas ocasiões trato por tu quase toda a gente. Mas vocês, portugueses, não têm essa carta para jogar, e pergunto-me porque continuam a insistir em complicar as vossas vidas.