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Descobrindo a vida de bike com a Duda!

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Oi gente. Hoje eu falo com a Duda. A Duda, ela entrou na minha vida por uma das minhas melhores amigas e por incrível que pareça, a gente só se viu uma ou duas vezes pessoalmente, mas nós mantivemos a amizade online. Hoje em dia ela mora em Amsterdã. Antes disso, ela estava em Lisboa e ela veio contar um pouquinho da trajetória dela, dessa mudança do Rio de Janeiro, do Brasil pra cá, pra esse lado daqui da Europa. E a Duda é um amor, eu fico muito agradecida de ela ter topado vir aqui participar e espero que vocês gostem assim, tanto quanto eu, né? De ter conversado com ela. Agora vamos começar com o episódio.

Transcription

Alexia: Duda, eu estava tentando lembrar, a gente se conhece por causa de uma de nossas melhores amigas que é a Bruna, né?

Duda: Sim, já tem algum tempo.

Alexia: Pois é, tem algum tempo. Mas eu acho que eu só te vi pessoalmente uma ou duas vezes na minha vida, alguma coisa assim.

Duda: Sim, eu acho que foi uma vez só no aniversário da Bruna na casa dela que foi tipo um open house.

Alexia: Foi uma loucura, né? É uma loucura.

Duda: Muito doido, né?

Alexia: E aí você veio pra cá, pra Portugal. E aí você foi para Lisboa, eu estou no Porto e a gente não se encontrou até então.

Duda: E a gente não se encontrou, bizarro, um absurdo.

Alexia: É um absurdo, é um absurdo. Mas me conta, você quis sair do Brasil por quê? Assim, o que te deu o pontapé pra você falar, “Ok, eu vou pra Europa, vou pra Portugal.” O que aconteceu na sua vida?

Duda: Então, eu já tinha feito intercâmbio em Lisboa em 2013, na época da faculdade, fiz um semestre em Lisboa.

Alexia: Com amigas que eu conheço também. Eu acho…

Duda: Quem?

Alexia: Com quem que você fez? Quais são os nomes?

Duda: Eu fiz com a Carol, que é da UF, Carol Delivenere.

Alexia: Não.

Duda: Tipo, foi a amiga que foi comigo. E aí lá eu fiz várias amigas.

Alexia: Com a Paula?

Duda: Uma amiga de Fortaleza. Paula? Não, acho que não.

Alexia: Então é outro grupo. Porque eu lembro que nessa época tinha muita gente vindo pra cá, pra Portugal, pra faculdade em si. E aí as pessoas se conheciam que eram da PUC, da UFRJ, da ESPM, muita gente assim. Então…

Duda: Ah, a Marina, talvez. Marina Chaves. Ela é da ESPM.

Alexia: A Marina, sim.

Duda: Ela é muito amiga de uma amigona minha e ela foi um semestre antes de mim. E aí ela me passou tipo, todas as dicas, todas. Assim, todas mesmo, ela me mostrou o mapa de Portugal e mostrou tudo, tipo, muito fofa. Então eu já cheguei lá, tipo…

Alexia: Exato. E ela é muito fofa. E a mãe dela era dentista da minha mãe, então assim…

Duda: Gente, é muito mundo ovo, né? É bizarro.

Alexia: Rio de Janeiro. Então tá, você veio pra cá, pra Portugal, Lisboa para fazer intercâmbio.

Duda: Isso, fazer intercâmbio. Não fiquei nem 6 meses, fiquei 5 meses e amei. Foi a primeira vez que fui pra Europa também. E eu sempre quis viajar. Não viajava tanto, era mais nova também, enfim, eu não trabalhava, não tinha dinheiro. Mas eu via, assim, pessoas viajando, sabe? Minha família, às vezes meu pai viajava com a minha madrasta, minha mãe viajava com o meu padrasto, meus avós, minhas amigas, tipo, eu via pessoas viajando e eu queria viajar, viajar pra fora. Eu achava um máximo viajar pra fora e até então eu tinha ido pra Disney assim, e eu queria muito conhecer a Europa. Eu não conhecia, foi a primeira vez que eu fui e, cara, foi muito legal. Eu me senti independente, sabe? Com 19 anos. Foi muito legal. Aí quando eu voltei pro Brasil, eu acabei a faculdade, tal, comecei a trabalhar no Rio, mas aquilo sempre ficou, sabe, no fundinho, tipo, “Cara, eu quero morar fora de novo. Eu preciso ter essa experiência de novo. Eu acho que eu me encontrei muito lá fora, não sei, eu quero ter essa experiência de novo fazendo alguma outra coisa, enfim.” E aí eu decidi que eu ia fazer alguma coisa fora de pós graduação ou mestrado, eu comecei a pesquisar, e achei a pós que eu fiz em Lisboa, na mesma faculdade que eu tinha feito intercâmbio inclusive. E cara, nessa época, um ano antes de eu ir, foi aquele ano que foi todo mundo pra Portugal assim, teve muita gente indo pra Portugal. Bizarro, né? Muita gente se mudou…

Alexia: Qual foi o ano mesmo que você veio?

Duda: Eu fui em 2019. Eu acho que em 2017-2018 a galera começou a ir muito. É, eu fui em 2019.

Alexia: É, eu também, 2019 pra cá. Eu lembro que você veio um pouco antes de mim. Você veio um pouquinho antes de mim, eu vim em maio de 2019, você já estava aqui eu acho.

Duda: Não, eu fui em setembro, setembro de 2019. Fui depois.

Alexia: Ah, então tá.

Duda: Mas foi essa leva de gente que começou a ir pra fora e eu falei, “Cara, eu quero ir. Ah, eu acho que agora é o momento, né? A gente é nova, ainda não tem tanta responsabilidade, nada que prenda a gente no Brasil, assim. Não tem filho, não tem nada assim, então é o momento.” E aí eu comecei a plantar a semente na cabeça do meu namorado para ele querer também, né? Porque também, eu decidi que eu queria morar fora de novo antes de a gente começar a namorar. Aí quando a gente começou a namorar, eu falei, “Cara, eu quero continuar o meu plano e ele tem que ir comigo.” E aí eu comecei a plantar essa semente.

Alexia: E ele sempre teve essa vontade ou não?

Duda: Não, não. Ele não tinha nenhuma vontade. E ele tem passaporte português. Então assim, pra ele era muito mais fácil, sabe? Muito mais fácil quando você tem passaporte. E eu não tenho, e pra mim era muito mais chato, muito mais difícil ir atrás de visto, ficar esperando, aplicar. E ele tinha meio que essa facilidade nas mãos e não fazia nenhuma questão. Acho que ele nunca tinha pesquisado, sabe? Não era uma coisa que ele pensava assim. E eu comecei a colocar essa semente, e aí ele, em algum momento topou. E aí ele ficou muito animado, mas enfim, já era mais pra vir pra Holanda. Os cursos que ele começou a ver para fazer mestrado eram na Holanda. Então primeiro fui para Lisboa, fiz a minha pós. Fiquei alguns meses lá sozinha, sem ele, mas foi muito boa a experiência também. Eu lembro até que eu falava com a minha psicóloga e ela falava, “Cara…”

Alexia: “É outra pessoa…”

Duda: “Você está a Duda com toda sua potência.” Sabe? Uma coisa bem de psicólogo, mas era muito isso assim. Eu estava me sentindo totalmente eu, eu me sentia totalmente independente e, sei lá, dona da minha vida. Não sei, assim, pra mim foi uma fase muito boa, sabe?

Alexia: Sim. Eu tenho duas opiniões sobre isso. Eu acho que uma, as pessoas, às vezes, romantizam muito morar fora, do tipo, “Ah, morar fora, Europa, que máximo. O que você está reclamando? Você não pode reclamar, porque você está na Europa.”

Duda: Sim.

Alexia: E a segunda parte é que sim, morar fora abre muitas oportunidades tanto pessoais do tipo de você entender quem é você, o que você gosta, o que você não gosta, como é que você lida com as pequenas coisas domésticas ou decisões muito importantes a serem tomadas. Então assim, tem esse balanço que a gente sempre tem que tomar muito cuidado, né?

Duda: É, exatamente. Esses dias eu estava falando com alguém, tipo, “Ai cara, que saudade de viajar.” Meio que ‘reclamando.’ Aí depois eu falei, “Mas assim, eu tenho total noção do meu privilégio, sabe? Eu estou morando fora há dois anos. Eu morei em Lisboa, eu vim pra Amsterdã com o meu namorado. Mal ou bem, a gente está conhecendo coisas novas e tal.”

Alexia: Sim.

Duda: Então eu acho importante também a gente ter consciência de que a gente também… Claro que não é perfeito, mil maravilhas, mas é um privilégio poder ir atrás do que você quer, morar onde você quer, enfim.

Alexia: Claro. Tem pessoas que nunca vão poder ter essa oportunidade.

Duda: Pois é.

Alexia: É difícil, porque ao mesmo tempo assim, “Ok, nós somos privilegiadas, mas ao mesmo tempo a gente não pode ficar se desculpando por ser privilegiada.” Sabe?

Duda: Sim.

Alexia: Quando eu reclamo com alguém, por exemplo.

Duda: Uhun.

Alexia: O euro tá muito alto comparado com o real, sabe? Tá insuportável isso. E parte do meu negócio a gente ganha em real, então assim, eu tô reclamando por causa disso.

Duda: Não, e eu mega te entendo, porque assim, como eu estava falando antes, eu não tenho passaporte europeu. Quando eu fui para Lisboa e fiz a pós, o meu visto não me dava direito a visto de trabalho, então eu não podia trabalhar. Quando eu  vim pra Holanda que eu apliquei pro visto também de trabalho, eu fiquei 5 meses esperando ele ficar pronto, então eu também não podia trabalhar aqui. E esse tempo todo, desde que eu morei em Lisboa até eu conseguir o meu emprego que eu estou agora aqui, eu trabalhei para o Brasil. Então eu também estava ganhando em real. Então ao longo desse quase 1 ano e meio, o meu salário foi diminuindo. Eu ganhava aumento e eu ganhava menos no final das contas, porque o câmbio foi ficando péssimo e é isso. Sim, é uma merda, a gente mora fora, mas sim, é uma merda. Esses dias também… Eu vou me mudar sexta-feira agora para um apartamento novo e daí eu estou super animada, porque a gente mora num estúdio aqui, e a nossa geladeira não tem freezer. E aí eu estava falando com uma amigona minha que morou fora comigo, tipo, “Cara, as pessoas acham que morar na Europa é muito chique.” Cara, eu não tenho nem freezer, eu não consigo congelar as coisas. É um frigobar, sem freezer. Agora eu vou ter freezer, eu to muito feliz que eu vou ter freezer.

Alexia: Eu lembro quando você comprou o forninho lá em Lisboa, que foi assim, uma coisa incrível. Eu falei, “Duda, eu também tenho, porque a gente não tem forno aqui, a gente tem forninho.”

Duda: Sim. O meu forninho quebrou, inclusive, tá? Estou sem forninho. São os perrengues chiques.

Alexia: Sim. Perrengue chique total. Aliás, esse Instagram eu amo.

Duda: Eu também amo.

Alexia: Adoro. Agora… Uma coisa que eu sempre tento fazer diferença é, por exemplo, a Duda que foi fazer intercâmbio sabendo que tinha um dia de chegada e um dia de saída, é diferente da Duda que mora fora em si, né? Você sente alguma diferença mental sobre isso?

Duda: Eu acho que hoje em dia… Na época do intercâmbio eu já sabia que eu ia voltar, né? Foi isso que você falou de ter data. E hoje em dia eu não tenho data pra voltar, então é uma coisa que a gente… Eu me pego pensando muito nesses planos a longo prazo, tipo, será que eu vou morar fora pra sempre? Sei lá, eu acho que a nossa geração, a nossa idade, nada é pra sempre assim de plano, né? “Ah, a pessoa saiu do Brasil e vai morar fora pra sempre.” Não. Ou então, “Ah, voltei pro Brasil e vou ficar no Brasil pra sempre.” Também acho que não, não sei.  A gente não tem muito como saber essas coisas e eu fico muito tentando planejar ou pelo menos pensando. E aí, sei lá, tipo tudo assim. Por exemplo, não que eu queira ter filho agora, mas eu quero ser mãe em algum momento. E a minha irmã, por exemplo, ela mora na Austrália e ela tem 2 filhos. Então assim, ela está super longe da família, a família encontra muito pouco. Tudo bem que aqui é mais perto do Brasil do que a Austrália. Mas mesmo assim, eu fico com essa questão de que daqui alguns anos eu quero ter filho. Será que eu vou estar morando aqui? Se eu estiver morando aqui, será que eu vou ter que aprender holandês? Porque meu filho vai pra escola e eu vou ter que aprender a falar holandês para falar com o meu filho? Tipo…

Alexia: Mas isso é muito engraçado.

Duda: Sei lá, essas coisas, tipo…

Alexia: É, porque é engraçado, o Foster, ele vai ter o sobrinho dele agora em outubro, né? Primeiro netinho da família, né? E eu ainda não posso ir para os Estados Unidos porque ainda existe o travel ban dos Estados Unidos que a gente não pode. A não ser que eu vá pro México e aí fica muito caro tudo, não vale a pena. E ele pode.

Duda: Mas ele está lá ou ele está ai?

Alexia: Não, ele está aqui e ele vai em algum momento pra lá. Porque vai fazer um ano que ele não vê a família também, por causa da pandemia e isso tudo. Mas aí eu fico pensando nisso também, tipo, será que quando foi possível dar o próximo passo, o que a gente vai fazer? A gente vai ter filho aqui? A gente vai ter filho lá? Sabe? Eu vou estar na Finlândia?

Duda: Aonde que eu vou estar? Exatamente. O que, às vezes, é meio assustador e meio estranho, mas por outro lado é legal. Sei lá, você pode estar fazendo qualquer coisa, você pode estar fazendo o que você quiser. É bom também saber que você tem opções, mas às vezes é difícil lidar com essas escolhas, né?

Alexia: E eu acho que uma das grandes questões que eu pelo menos converso muito com a minha psicóloga também é tipo assim, o que é casa? Será que eu considero o Porto casa? Eu não considero o Rio minha casa. O Rio é um lugar para visitar meus amigos e nem minha família está lá, que minha família está em São Paulo e Minas. Então assim, o Rio foi o lugar onde eu morei, onde meus amigos estão. Mas o Rio não é minha casa, Rio é onde eu nasci e amo de paixão, mas não é lá. O Porto, não sei, porque eu passei a maior parte numa pandemia, então eu ainda não sei.

Duda: É, tem isso também. Eu acho que eu nunca tinha parado para pensar nisso de casa. É uma boa reflexão. Eu sinto o Rio ainda a minha casa assim, eu acho que eu sou apegada assim. Não sei se tanto a cidade, mas acho que mais as pessoas. A cidade também, eu amo o Rio, mas eu não consigo me ver morando lá no futuro, assim. Sei lá, em relação a violência, não consigo me ver criando filho lá, não sei. Mas isso sou eu agora, né? Pode ser que eu mude de opinião, sei lá. Mas, por exemplo, eu morei em Lisboa por um ano, né? Antes de eu vir pra Amsterdã. E hoje em dia… Na época era total minha casa, eu realmente enxergava. Mas hoje em dia, quando eu olho, eu amo Lisboa, mas não é minha casa. Não sei, mas eu acho que eu vou mudando assim. Sei lá, na verdade eu acho que é mais isso das pessoas com quem você está, as pessoas com quem você se relaciona no lugar. Tipo, eu e meu namorado, a gente se dá muito bem morando junto. A gente nunca tinha morado junto, cada um morava na sua casa no Rio. E ele chegou em Lisboa para me encontrar, pra depois a gente vir pra cá. Ele chegou no dia que as fronteiras fecharam por causa do Corona, então a gente começou a morar junto já…

Alexia: Lockdown.

Duda: De quarentena. Lockdown, tipo, 24 horas por dia juntos. E ele ainda ficou uns meses para achar emprego, então enfim, ele ia trabalhar de casa de qualquer forma, mas assim, era 24 horas por dia junto, então eu me sentia muito em casa com ele. E eu acho que hoje em dia eu me sinto muito em casa com ele aqui também, então eu acho que talvez seja mais isso, sabe? Eu acho que eu tô em casa com ele. Mas se eu tiver com a minha família, eu vou estar em casa com a minha família e com os meus amigos. Não sei, tô pensando nisso agora.

Alexia: É, porque tem muita gente que precisa da cidade em si para fazer sentido, para então chamar de casa. Por exemplo, eu, hoje em dia, a Alexia de hoje não se imagina morando nos Estados Unidos, porque não existe saúde pública. O que eu preciso na minha vida nesse momento é a saúde pública. Aqui em Portugal me dá essa opção, ou então quase qualquer outro país da Europa me dá essa opção. Então talvez seja isso, assim, o grupo de amigos que você esteja inserido ou o seu relacionamento, se você fosse mudar para o Egito ou não, vai fazer sentido pra você.

Duda: É, exatamente. Mas isso do que a cidade, talvez. Mas eu amo o Rio assim, tipo, eu não saí de lá porque eu não gostava do Rio. Mas eu acho que a questão da segurança sempre pegou pra mim. Eu sempre fui, tipo, do meu grupo de amigos, eu sempre fui a mais noiada, sabe? A mais neurótica que morria de medo de ser assaltada a qualquer segundo. Eu tenho amigos que são muito tranquilos. O Rio é um lugar perigoso e cara, eles são tranquilos, andam tranquilos e nunca aconteceu nada, e é isso. Cara, comigo não, eu andava nervosa, eu ficava nervosa, eu tinha que pegar ônibus e aí eu ficava revoltada. E eu tenho uma coisa com a falta de liberdade que te dá a insegurança, sabe? Eu achava, eu acho ainda um absurdo eu não poder pegar meu celular no ônibus. Esse tipo de coisa, sabe? Que tira sua liberdade. Pra mim, era revoltante, entendeu?

Alexia: De não poder usar um cordão, de não poder usar relógio. Tipo assim…

Duda: Essas coisas vão moldando sua vida, né? Sei lá, eu acho que eu já deixei de comprar uma coisa porque, “Cara, onde é que eu vou usar?”

Alexia: Com certeza.

Duda: Vou usar o relógio? Não vou usar. Tipo e, sei lá, isso para mim pesava muito. Eu fico até pensando agora, eu fui para o Brasil a última vez em dezembro de 2019, vai fazer 2 anos que eu não vou. E eu vou no final desse ano, ainda não comprei a passagem, quero comprar, tô desesperada para comprar. Mas eu fico pensando, cara, como é que será que eu vou me sentir? Porque eu lembro que quando eu voltei do intercâmbio, que eu fiquei 5 meses só em Lisboa, quando eu voltei, eu lembro que eu fiquei meio que, “Caraca, preciso ficar atenta ao meu celular.” Tipo, não estava mais acostumada com isso, sabe?

Alexia: Eu não sei se você teve essa por exemplo, quando eu vim pra cá, eu sempre estava em estado de alerta. Gente, não é que no Porto e em Lisboa não existam um assalto. Óbvio que existe, em qualquer lugar do mundo existe, mas é um assalto que não vai te machucar, não vai vir com uma faca pra você, sabe?

Duda: Não é violento assim, né?

Alexia: É um furto na maioria das vezes. E aí, eu sempre estava em estado de alerta. Nós somos preparadas e treinadas na marra pra estarmos em alerta no Rio de Janeiro, no matter what, né? Sempre assim.

Duda: É, total.

Alexia: E aí, quando eu cheguei aqui e eu comecei a relaxar do tipo, “Tá, eu posso pegar meu celular e ligar pro meu pai pra saber se ele precisa de alguma coisa da farmácia.” Sabe?

Duda: Sim. Uma coisa tão básica.

Alexia: Eu não preciso entrar numa loja, me esconder, mandar uma mensagem ou ligar, para então… E aí, eu fico pensando exatamente isso, quando eu voltar pro Rio, que eu não tenho data, não sei quando eu vou, como que eu vou me sentir? Porque se eu descer no Galeão, que é o aeroporto internacional e passar por aquele paredão que eu morro de medo daquele lugar, da linha vermelha.

Duda: Eu também morro de medo.

Alexia: Como é que eu vou ficar? Eu prefiro descer em São Paulo, em São Paulo pegar um vôo nacional para o Santos Dumont, para então ir pra Zona Sul do Rio. Olha que loucura.

Duda: Eu tenho isso também, mas o que eu vejo não é nem do Galeão ou Santos Dumont, mas eu não quero pegar voo que chegue à noite no Galeão. Então eu pego vôo que chega de manhã. De manhã assim, geralmente os vôos chegam 6h30 da manhã, e aí eu acho ótimo, que é muito cedo assim. Olha que coisa louca, né? E você faz isso meio que no automático, né? Não é uma coisa, “Eu vou procurar um vôo.” Para mim já é automático, eu já pesquisei de cara, não vou chegar no Galeão 11 horas da noite.

Alexia: Não, é uma loucura.

Duda: Eu lembro que uma vez eu peguei um vôo no Galeão que saía 3 da manhã e eu fiquei muito nervosa, porque eu falei, “Cara, eu vou passar ali de madrugada.” Eu fui até mais cedo, eu fiquei horas no aeroporto de bobeira, porque eu não queria ir tão tarde. Bizarro.

Alexia: Duda, eu e você, a gente tem que andar juntas no Rio, porque tem que contratar a gente pra fazer até segurança, porque a gente sabe tudo. É horrível a gente falar isso do Rio, que é uma cidade que a gente ama, mas é a verdade.

Duda: Pois é. É a verdade, fazer o que? Mas é isso, apesar de ter esses pontos ruins, eu não deixo de gostar do rio. Tipo, eu amo, eu acho a cidade maravilhosa, linda, é o meu estilo de vida, eu acho. Eu sou muito do calor, sabe? Eu amo quando está quente. Eu não gosto do frio, isso é uma das coisas que me incomodam um pouco daqui, mas eu estou começando a me acostumar.

Alexia: Daqui, Amsterdã?

Duda: É. Em Lisboa era engraçado, porque eu sentia frio, e aí eu pensava, “Gente, eu tô ferrada, quando eu chegar em Amsterdã eu vou congelar.” Só que cara, eu acho que aí as casas não são preparadas para o frio igual aqui. Aí eu passava frio na minha casa, dentro de casa, com tudo fechado, o aquecedor não era potente o suficiente. Sei lá, as casas eram frias. Tipo, aqui, caraca, tá sempre tudo quentinho, sabe? Então eu acho que eu também lidei melhor com o inverno por causa disso, acho que a cidade é mais preparada assim.

Alexia: Com certeza. Portugal tem um sério problema com as casas antigas, porque as de hoje em dia já tem aquecimento central, tem tudo central. Mas a gente não tem grana para pagar por isso, então também.

Duda: E é caro. Isso é uma coisa que a gente estava preocupado, porque esse apartamento que a gente está agora em Amsterdã, ele é subsidiado pela faculdade do Bernardo, né? Que ele veio fazer o mestrado aqui, né? E aí a gente paga muito mais barato do que a gente pagaria num aluguel normal e todas as contas estão incluídas. Então assim, o nosso aquecedor no inverno era 24h por dia ligado. Eu falei, “Gente, a gente está muito mal acostumado, porque quando a gente se mudar, quando a gente for pagar certinho o que a gente está consumindo, não dá. Vai ter que deixar uma temperatura muito menor e deixar muito menos tempo ligado, sabe?” Meu Deus, nem sei como é que vai ser.

Alexia: Não, vai dar tudo certo, vai dar tudo certo. Compra aquela manta elétrica, deixa a cama quentinha.

Duda: Isso é uma boa.

Alexia: Quando for dormir, desliga, porque ninguém quer morrer eletrocutado também. Tira da tomada e pronto. Isso eu faço aqui, tá? Eu nunca passei frio à noite aqui, nunca.

Duda: É, essa é uma ótima dica mesmo.

Alexia: Sim. E aí, Duda, me fala, você morou quase um ano em Lisboa, você já está há quase um ano aí também, né? Em Amsterdã.

Duda: Eu já estou há quase um ano aqui. Passou muito rápido.

Alexia: Maiores diferenças, o que você acha?

Duda: Cara, eu sinto que aqui em Amsterdã as coisas funcionam melhor do que em Lisboa. Em termos de, tipo, burocracias ou coisas do tipo. Em Portugal, eu lembro que era muito complicado para ligar para o SEF ou para ligar pra sei lá aonde para conseguir o NIF, para conseguir aquilo. Era tudo muito difícil. E aqui, não é que aqui seja perfeito, aqui é tudo por carta, eu não consigo entender. Eu não consigo entender. Outro dia eu perdi uma fatura de um médico que eu liguei, foi uma consulta pelo telefone de 15 minutos, aí a pessoa me cobrou 30 euros, eu nunca recebi a carta. E aí eu recebi um SMS me cobrando uma multa de 80 euros porque eu nunca paguei a carta. Aí eu falei, “Gente, se tinha um SMS, se tinha meu telefone, podia ter entrado em contato pelo telefone para cobrar pela multa, né?”

Alexia: Deixa eu só falar uma coisa. Você falou, “Eu perdi minha fatura.” Isso é muito português de você.

Duda: Fatura, português, é. É porque em holandês é factuur, sei lá como é que fala, mas é factuur, então me veio na cabeça. Muito bom.

Alexia: Muito bom, adorei. De qualquer forma, mas isso é muito… Aqui é muito burocrático, até pra quem é cidadão. Nossa, é muito burocrático. Mas também, é uma burocracia diferente do que eu vejo no Brasil, aindaexiste  uma máfia por trás, mas é diferente. É uma burocracia que “funciona” no final de contas.

Duda: Exatamente, é diferente do Brasil. Mas é uma coisa meio complicada.

Alexia: Sim.

Duda: E daí eu achei que aqui é um pouco melhor. Eu não sei, eu acho que são cidades muito diferentes, países muito diferentes. Eu acho que aqui as pessoas… É a impressão que eu tenho, são mais cabeça aberta do que em Portugal. Amsterdã, principalmente, é uma cidade muito internacional, tem gente do mundo todo. Tem muita multinacional, muita sede de empresa. Então, por exemplo, no meu trabalho, na minha equipe tem, tipo, uma holandesa de, sei lá, 20 pessoas. As pessoas são do mundo todo. E eu acho que eu não via tanto isso em Portugal, sabe? Portugal para mim era uma coisa mais fechada. Mais portuguesa, é.

Alexia: Sim.

Duda: Então acho que aqui eles são mais tranquilões…

Alexia: Eu acho que Portugal é internacional. Tipo, Lisboa e Porto são internacionais mas pro turismo. Tipo assim, “Venham pra cá, comprem nossos produtos, mas não venham trabalhar em nossas empresas. É tipo isso.

Duda: Isso total. Eu não cheguei a procurar emprego aí, porque eu não tinha o visto, né? Mas de todo mundo que eu escutei falar que estava procurando, enfim, fala que é muito complicado. E que chega, às vezes, até… Eu nunca sofri nenhum tipo de preconceito por ser brasileira, mas já escutei muita história de gente que sofreu preconceito por ser estrangeiro, sabe? Assim, não é que também não tem aqui, eu acho que tem em qualquer lugar. Aqui eu também já escutei história. Mas em Portugal eu acho que eu ouvia mais, sabe?

Alexia: É, eu também nunca passei por problemas. Eu não sei se quando as pessoas me perguntam, “Ah, a menina é onde?” Porque eles escutam o meu sotaque, obviamente, eles sabem que eu sou brasileira, mas eles querem que eu responda, né? E aí eu falo, “Ah, eu sou do Rio.” Aí eles me olham super simpáticos, sempre perguntam, “Oh, mas o que a menina está a fazer aqui?” Ai eu falo, “Ah, eu tô morando aqui e tal.” Conto um pouco da minha história. Aí eles me perguntam, “Mas você tem família aqui?” “Sim, a família toda da minha mãe é daqui. Eu sou portuguesa, sou luso-brasileira.” “Ah, pois então só tens o sotaque.” Assim, aí eles se abrem completamente. Se abrem meio que assim, “Ok, então alguém de Portugal foi pro Brasil pra tentar ganhar a vida e aí veio a Alexia.” Sabe?

Duda: Uhun.

Alexia: Faz sentido na cabeça deles.

Duda: Uhun. Muito bom.

Alexia: Agora, em compensação com o Foster, o Foster é super bem-vindo pelos portugueses, porque eles ficam impressionados que ele fala português fluentemente. Então aí tem essa parte assim, um americano que quis aprender português?

Duda: Isso é muito valorizado, né? Quando você realmente se dedica a aprender a língua. Eu vejo isso aqui também, não é todo mundo que fala holandês, porque até certo ponto, você não precisa. Eu tô aqui há um ano… Eu tenho vontade de aprender se eu for ficar muito tempo. Como ainda não está muito bem definido, ainda não… É uma língua difícil pra caramba, né? Também não vou gastar meu tempo, minha energia e meu dinheiro numa parada que eu não sei se eu vou usar. Mas eu vejo como que eles também ficam surpresos e acham um máximo quando alguém, um estrangeiro está falando a língua deles, né? Eu acho legal também, né?

Alexia: Claro.

Duda: Você está morando no país deles, eu acho que é legal. Mas se você não fala também, não é motivo pra você sofrer preconceito.

Alexia: Claro que não, claro que não. Até porque ninguém é obrigado a nada. A gente está fazendo um esforço para aprender uma outra língua, mas você não é obrigado.

Duda: Exato.

Alexia: Quando eu vou para os Estados Unidos e eu não tenho mais o sotaque brasileiro quando eu falo inglês, o meu sotaque é meio estranho assim, é uma mistura que o Foster conseguiu fazer em mim. E sempre me perguntam assim, “Ah, mas da onde você é? Você é do leste europeu?” Ai eu, “Nossa, do leste europeu? Eu cheguei a esse ponto?” Sabe?

Duda: Muito bom.

Alexia: É, é.

Duda: Específico, né?

Alexia: “Você é do leste europeu?” “Não. Eu tenho cara do leste europeu?” Porque as mulheres são super altas lá, sabe? E você tem uma comunidade brasileira aí? Você conhece outros brasileiros aí ou não?

Duda: Conheço sim. As minhas amigas mais próximas são brasileiras. O brasileiro, ele se encontra, né?

Alexia: É um imã.

Duda: Qualquer lugar do mundo.

Alexia: É um imã.

Duda: Cara, em Portugal era só brasileiro assim. Os portugueses que eu conhecia que eram próximos eram os agregados, tipo, namorados de amigas brasileiras e todos eram muito legais. Mas eu acho que eles, para fazer amizade, pelo menos as pessoas que eu conheci, também eram muito fechadas, sabe? Então acaba que é isso. Eu morava com uma brasileira que era amiga de uma amiga minha brasileira. E aí eu conheci mais gente do grupo. Aí eu conheci brasileiros na faculdade e aí a amiga de amiga vem. É sempre amigos em comum, né?

Alexia: Sim.

Duda: Pelo menos comigo é sempre amigo em comum. Aí vai apresentando. E aqui foi a mesma coisa. Eu cheguei no meio do Corona, né? Então eu, na verdade, eu estou aqui há quase um ano, mas eu ainda estou no processo de fazer amizade, eu ainda não tenho um grupão de amigos, entendeu? E isso, na verdade, pra mim, eu acho que é a coisa que mais pesa negativamente daqui. Eu acho que aqui não tem… Aqui tem muito brasileiro também, mas eu acho que é diferente da comunidade brasileira que tem em Portugal, que eu acho que é muito maior. É, a gente chegou no meio do Corona, não conheceu muita gente, passou a maior parte do tempo em casa, eu e ele. E aí, conforme as coisas foram melhorando, a gente foi saindo mais e as pessoas que eu tenho amizade hoje em dia são todas brasileiras. E foi tudo assim, uma amiga veio falar comigo, “Ah, eu conheço uma menina que mora aí.” “Ah, a prima do namorado da minha prima.” Sei lá, pessoas aleatórias… “Mora aí, quer que te apresente?” Então foi muito assim. E o meu namorado, ele só começou a fazer amizade com o pessoal da faculdade dele agora também. Porque até então com o Corona, tudo fechado. Sei lá, às vezes você não conhece a pessoa direito, não sabe se a pessoa está saindo. Aí você vai na casa da pessoa?

Alexia: Não.

Duda: Que você não conhece direito? Entendeu? Então a gente não fazia amizades assim. Aí, esse ano, agora há pouco tempo que as coisas começaram a melhorar. Essa semana, de um tempo pra cá, até deu uma piorada, mas teve uma fase que estava tudo muito mais tranquilo e aí sim a gente começou a sair mais. Mas é isso, minhas amigas, elas são brasileiras.

Alexia: É. O que eu sinto, eu não sei se em Lisboa era a mesma coisa, mas aqui no Porto o que eu sinto é, tanto para brasileiro quanto para português ou comunidade internacional, se você não faz parte, por exemplo, de uma faculdade, de um mestrado, de um trabalho, você não vai ter amigos. É o nosso problema, porque a gente não fazia parte de nenhum desses grupos, principalmente com a pandemia. Então assim, a gente tem colegas, sim, eu conheço pessoas no Porto do meu coworking por exemplo, mas não são as pessoas que eu ligaria e falaria, “Olha, tô passando aí, vamos descer pra tomar um café? Vamos papear sobre a vida?” E agora que está começando a voltar também, que as pessoas estão ficando vacinadas e etc e aí dá pra começar a fazer. Então, isso, pra quem está pensando em morar fora, se você não fizer parte de um grupo específico, talvez sofra muito pra ter amizades.

Duda: Com certeza. Foi mais ou menos o que eu passei, porque eu cheguei aqui, não vim estudar, meu namorado que veio, não estava trabalhando. Agora que eu comecei a trabalhar aqui, então agora que eu tô começando a conhecer as pessoas. Mas também, ainda são pessoas que são colegas, né? Não são amigos. E eu fiquei muito nesse limbo assim, tipo, é difícil. Eu acho que isso pesa muito assim. Tipo, eu não sei se é porque a gente é brasileiro, a gente é mais caloroso e comunicativo, eu não sei, mas depende da pessoa também. Mas, pra mim sim, é o que mais faz falta. E assim, tanto em Lisboa quanto no Rio, cara, eu tenho vários grupos de amigos e são amigos que é isso que você falou, vou mandar mensagem e a gente vai se encontrar. E aqui já não é tão assim, né? Apesar de eu ter amigos aqui que eu adoro e que eu sei que eu posso contar, sabe?

Alexia: Sim.

Duda: Mas não é um grupo, não é…

Alexia: Na hora de alguma emergência, sim, eu tenho pessoas que eu posso ligar e falar, “Me ajuda.” Mas não para tipo, “Vamos dar um passeio.” Que engraçado, né? Deveria ser muito ao contrário.

Duda: É. Mas que bom que a gente tem pelo menos essa rede de apoio assim, eu acho importante ter.

Alexia: Sim.

Duda: É isso. Quando a gente foi pra Portugal, já tinha muitos amigos morando lá. Amigões assim, sabe? Eu e o Bernardo, meu namorado, a gente estudou junto no colégio, então a gente tem o mesmo grupo de amigos assim. Então tinham vários amigos do nosso grupo mesmo lá. Então cara, a gente chegou…

Alexia: Ai que sorte.

Duda: É, foi tipo perfeito assim. E foi conhecendo mais gente e tal. E aqui não, a gente veio sem conhecer ninguém. Pra não dizer que a gente não conhecia ninguém, a gente já conhecia um menino. Olha que legal, ele é holandês e ele morou no Brasil por alguns anos. Ele fala português também e ele foi fazer estágio lá, alguma coisa assim. Conheceu os meninos do nosso grupo de amigos e ficou muito amigo da galera, então a gente já tinha esse contato assim. Mas fora ele, a gente não conhecia ninguém. E é muito doido você ir pra um lugar que você não conhece ninguém, né? Aí você acaba se… Ficou muito eu e o Bernardo, né? Um se apoiando muito no outro assim. É, é o que eu sinto também com o Foster. A gente arranjou um cachorro, né? E aí tem o grupo dos cachorros, então eu faço parte de um grupo.

Duda: Ah, isso sempre tem, né? Isso é bom também.

Alexia: E agora todo mundo sabe quem eu sou na rua por causa do Buddy. Então assim, também ajuda muito você ter um cachorro, porque todo mundo adora… A maioria das pessoas em geral adoram e querem falar, querem brincar, querem sei lá. Então assim, os restaurantes aqui da rua, todos eles já sabem quem sou eu, quem é o Foster quando a gente está com o Buddy. Agora, se a gente não estiver com o Buddy ninguém reconhece a gente. Então eu fico muito triste assim, sabe?

Duda: Que maravilhoso.

Alexia: Eu fico muito triste assim, sabe? Do tipo, sério que eu tenho que carregar meu cão para todos os lugares?

Duda: Cara, que engraçado, sério.

Alexia: Sim. Agora isso que você fala de pertecer a um grupo é engraçado, porque eu sinto que eu pertenço a um grupo nos Estados Unidos, e olha que eu nunca morei lá.

Duda: Uhun.

Alexia: Mas porque tem a família do Foster, tem o irmão do Foster, tem os amigos do Foster que eu já tenho intimidade depois de 6 anos juntos, né? Você tem intimidade. Eu sinto que eu faço parte de um grupo lá, sabe? Que tipo, “Ok, a gente pode sair, pode se divertir, pode sair pra jantar e etc.” E aqui ainda estou na expectativa, mas eu acho que as coisas vão melhorar.

Duda: É, eu acho também. Eu também acho, eu acho que é esse momento que a gente está vivendo e que já tem um tempo, né?

Alexia: É.

Duda: E a gente veio morar fora tipo um pouco antes de tudo isso, então é complicado, mas eu acho que é tudo fase também, daqui a pouco melhora.

Alexia: Agora, Duda, existe uma grande diferença para muitas pessoas do tipo, porque assim, aquilo que você imaginou de ter uma experiência fora é exatamente aquilo que você está vivendo hoje em dia? Ou é melhor? Ou é “Okay, ainda não cheguei lá”? Ou é horrível? Eu sei que não é horrível, porque eu já te conheço, eu sei que você está amando, mas de qualquer forma.

Duda: Cara, eu acho que é diferente assim, mas não que seja pior nem melhor. Eu acho que a gente só tem expectativas diferentes antes de morar fora. Foi o que você falou das pessoas acharem que morar fora é só coisa boa e é perfeito, e você não vai passar por nenhum perrengue, sei lá. E não, e na prática não é assim, mas não necessariamente isso também é uma coisa ruim. E também, por exemplo, “Ah, tô morando fora. Nossa, vou aproveitar muito, vou viajar todo final de semana.” Tudo bem que agora com o Corona não tem nem possibilidade, mas assim, quando eu estava em Lisboa antes do Corona, eu não viajei tanto assim, sabe? Porque quando você bota no papel também… Claro que é muito mais barato você já estar na Europa se você quer ir pra outro país da Europa. Óbvio que é mais barato do que se você está no Brasil, mas também não dá pra você… Não é, “Ah, é só festa, é só viagem.” Não, é tipo vida normal, você vai trabalhar, você vai limpar tua casa.

Alexia: Sim.

Duda: E é isso. Aqui eu moro sozinha, no Rio eu morava com a minha família, então aqui eu que sou 100% responsável por tudo da casa. Eu e o meu namorado, né? Mas a gente ainda morava em casa, né? Então ainda tem essa mudança assim.

Alexia: Tem. E principalmente pra nós que viemos de família brasileira que tipo, lá no Brasil é normal você ter empregada, né?

Duda: É, exatamente.

Alexia: É normal, é uma coisa que você já está acostumada de ter sua comida cozinhada, sua comida feita, casa limpa, roupa lavada e etc. Então assim, isso também. Eu já não tinha empregada no Brasil há muito tempo assim, é uma coisa que o meu pai, a gente sempre se virou muito bem, mas sim, eu adoraria ter uma hoje em dia pra limpar a casa um pouco, porque é duro, é duro morar fora.

Duda: Com certeza. Esses dias eu falei com o Bernardo, “Cara, eu acho que a gente pode contratar alguém pra ajudar a limpar a casa uma vez no mês, que seja, só pra dar uma geralzona.” Porque isso é a parte mais chata pra gente e me incomoda que está sujo, e às vezes eu não to com disposição de limpar, porque eu trabalhei o dia inteiro e no meu horário de almoço eu almocei correndo, porque tive que fazer o almoço, e coisas normais da vida, né? Mas eu acho que eu só fui ter essas responsabilidades aqui.

Alexia: Sim.

Duda: Foi isso que você falou, no Brasil eu não tinha realmente. Mas é isso, não é melhor nem pior, eu acho, sei lá, que é diferente da expectativa. Mas eu amo, eu amo morar fora.

Alexia: Eu também.

Duda: Eu amo minha vida aqui. Eu me sinto muito bem assim. Óbvio que tirando a saudade de casa, da família, eu sinto muita saudades, ainda mais agora com o Corona que a gente está há muito tempo sem ver nossos familiares, pesa mais assim, mas tirando essa parte negativa da saudade, da distância, cara, eu amo. Eu acho a vida aqui ótima, eu sinto que eu tenho muito mais qualidade de vida, muito mais, sem comparação, sabe?

Alexia: Eu também. E é uma coisa que eu fico falando muito com a Bruna, com a nossa amiga, porque a Bruna sempre está reclamando do Rio, óbvio, sempre. E eu assim, “Bruna, pega a sua mala, procura emprego e vem pra cá pra qualquer lugar da Europa.” “Ah, mas o meu cachorro…” “Ele pode viajar de avião, existem companhias para isso, é só uma questão de querer.” Óbvio, não é tão simples, né? Você precisa planejar e etc, mas assim, é querer fazer.

Duda: Sim. É se mexer pra ver, né? É um saco procurar essas coisas. De vez em quando vem alguém me perguntar, “Ai, me ajuda? Tô pensando em morar fora. Como é que eu me planejo? Quanto que eu preciso?” Cara, realmente, é um saco viver isso.

Alexia: Depende muito de cada pessoa, depende…

Duda: Depende muito do estilo de vida. Cada pessoa fala uma coisa, né? Cada pessoa tem o seu gasto, mas eu acho que é uma questão de prioridade mesmo, né?  Não só de prioridade, claro, mas por exemplo, o meu custo de vida aqui vai ser muito menor do que de uma outra pessoa que vai sair muito mais, que vai gastar muito mais comprando alguma coisa. Pra mim, o meu luxo é comer fora, eu amo comer. E viajar, é que agora a gente não está viajando, né? Eu amo comer fora, eu amo comer, na verdade. Então, pra mim, esse é o meu gasto, sabe? É muito difícil eu comprar uma parada. E eu acho que é isso, você também ir adequando o seu estilo de vida, né?

Alexia: É, exatamente. Agora, uma pergunta que eu estou fazendo pra todo mundo que está aqui fazendo o Carioca Connection comigo. Qual cidade ou lugar ou trilha, sei lá, o que você quiser indicar para as pessoas visitarem no Brasil tirando o Rio de Janeiro, São Paulo, Salvador, Florianópolis que são os clichês. Mas você também pode indicar dentro do Rio alguma coisa que seja muito específica, sabe? Porque assim, “Visita a Copacabana,” todo mundo já sabe isso, sabe?

Duda: É, não.

Alexia: Então… O que você indica?

Duda: Cara, olha, eu amei Ibitipoca, que é em Minas Gerais. Eu amei, assim, é um lugar totalmente natureza, cachoeira, trilha. Mágico, é mágico. Foi uma viagem que eu fiz que foi muito legal, você consegue fazer em… Acho que um final de semana é muito pouco, mas talvez um final de semana prolongado, uns 3-4 dias. Eu acho que eu fiz num carnaval assim, uns 4 dias, 5 dias. Eu acho que é muito diferente pra quem vem de fora do Brasil, uma paisagem muito diferente assim. A cor da água, né?

Alexia: Ah, é tudo tão lindo.

Duda: O visual é muito lindo. Eu acho que é um lugar diferente assim e é uma dica boa.

Alexia: E duas curiosidades. Foi a minha primeira viagem com o Foster, no comecinho do nosso relacionamento a gente ficou 4 dias lá. E eu querendo me mostrar atlética, sabe? Menina trilheira e etc. Eu fiz aquela trilha de 18 km num dia. Duda, no final, eu estava com a minha perna tremendo tanto, mas tanto que eu falei, “Eu preciso que um helicóptero chegue aqui pra me salvar. Eu não ando mais.” Sabe? Eu não ando. Tudo para impressionar o Foster.

Duda: Cara, é bizarro. É a da janela do céu, né? Que você está falando.

Alexia: Só que assim…

Duda: Caraca, é brabo.

Alexia: A gente não seguiu pra janela do céu, a gente foi indo. Tem a gruta do… Sei lá, tinha um bando de morcego lá embaixo também. Que aliás, falando hoje em dia, não sei se foi uma boa escolha a gente ir pra um bando de morcego, mas tinha a gruta dos morcegos. E aí depois a gente foi pra cachoeira da Coca-Cola, que a cor da cachoeira era de Coca-Cola, que sei lá. Aí não era só você chegar e ver, né? O Foster queria descer pra ver cada coisa, então não era só a trilha, era tudo específico. E eu não sabia que horas ia acabar aquilo. E era a minha primeira experiência com ele assim, sabe? Hoje em dia eu já não me meto mais nisso, mas Ibitipoca vale muito a pena.

Duda: É. E ele já sabe.

Alexia: Sim.

Duda: Vale muito a pena, foi ótimo. Eu também, eu não sou a pessoa trilha assim, tipo, eu até queria ser mais…

Alexia: Aventureira.

Duda: Do esporte, aventureira, eu não sou. Mas mesmo assim, mesmo eu que não sou a pessoa com preparo físico, também morri nessa trilha. Ela é longe, né? Ela é uma trilha longa assim, mas vale muito a pena, é lindo.

Alexia: Sim. E a cidade em si de Ibitipoca é muito bonitinha, né?

Duda: É, é muito fofinha.

Alexia: Os mineiros são maravilhosos, a comida é muito boa. Doce de leite de lá é muito bom.

Duda: Maravilhoso. Pão de queijo. Eu fiquei numa pousada super gostosinha assim, super simples assim, bem caseira, sabe? Um café da manhã maravilhoso. Os donos eram muito fofos, carinhosos. Nossa, foi muito bom. Foi ótimo.

Alexia: Amei. Amei essa dica, porque a gente gravou um episódio todo sobre Ibitipoca já aqui. Mas assim, às vezes parece que é a gente dando uma dica x. Quando escuta outra pessoa falando, “Sim, vale a pena, vão pra lá,” sabe?

Duda: Sim, eu reforço.

Alexia: Exato, exato. Mais alguma outra que você pense de cabeça?

Duda: De qualquer lugar do Brasil?

Alexia: Sim, de qualquer lugar. Nós já tivermos Lençóis Maranhenses, Chapada Diamantina. Se não me engano Manaus e Atins, eu acho.

Duda: Uhun.

Alexia: É, por enquanto foi isso.

Duda: Outro lugar que eu fui é mais turistão talvez, mas é Jericoacoara.

Alexia: Ah, sim.

Duda: Eu amei Jericoacoara, achei que valeu muito a pena. Turistão no sentido de que talvez fosse mais conhecido, mas não é um destino pega turista, não foi isso que eu quis dizer. Acho que é um destino que eu inclusive tenho amigos que são de Fortaleza e que vão sempre a Jericoacoara, porque amam, sabe? Eu amei, achei muito lindo, é uma vibe meio roots, assim. O lugar é todo de areia, então você anda com o pé na areia, sabe? Eu achei muito gostoso, eu passei pouquíssimo tempo lá, porque eu fui em alta estação. Não tinha hotel disponível, não tinha nada. Aí essa minha amiga de Fortaleza conseguiu um esquema pra gente passar uma noite, tipo assim, foi muito corrido e mesmo assim valeu muito a pena.

Alexia: Ah, essa coisa de ficar com o pé na areia o dia inteiro e não se preocupar com nada, ai, isso eu sinto muita falta, Duda. Isso pra mim…

Duda: Ai, eu também.

Alexia: Isso pra mim… Isso é o Brasil pra mim, sabe?

Duda: É.

Alexia: Ai que saudade que eu tenho disso.

Duda: Nossa, e você falou isso, essa viagem foi tão relaxante que a gente dormiu, eu estava com duas amigas, a gente dormiu na areia e a gente acordou com as ondas batendo na gente, levando a canga, levando o chinelo, porque a gente realmente apagou, estava muito confortável, sabe? Muito gostoso.

Alexia: Ai que bom. Que bom.

Duda: Saudades.

Alexia: Olha, queria agradecer você ter topado vir aqui falar comigo.

Duda: Obrigada você pelo convite, foi ótimo.

Alexia: Sim. E espero que você volte mais vezes para falar mais sobre as suas futuras experiências fora de Amsterdã.

Duda: Sim.

Alexia: Que eu tenho certeza que você ainda vai viajar muito.

Duda: Sim, Deus te ouça.

Alexia: E a gente se encontra, porque provavelmente ano que vem eu devo ir pra aí. Eu não sei, mas a gente vê.

Duda: Tá, vem. A Bruna falou que ela quer vir, que ela quer encontrar você e vocês querem viajar. Podem vir, podem ficar lá em casa, na casa nova.

Alexia: Eu só acredito que a Bruna vai vir quando ela me mandar a passagem, aí pronto.

Duda: Eu também.

Alexia: Obrigada. Um beijo.

Duda: Obrigada você. Beijo.